Copos voadores – do líquido ao objeto!

Humberto Dantas

14 de dezembro de 2015 | 07h09

Diversas obras da Sociologia retratam que o Brasil se fundou sob a lógica de um patriarcado desregrado, em que o machismo predominou, e ainda predomina, de forma quase imperial. Assim, em linhas gerais e de forma despretensiosa em termos acadêmicos: quanto mais poder um homem tem nesse país, mais imagina e sonha que tem o direito extraordinário e ilimitado de, entre várias outras aberrações, promover cantadas, ofertar galanteios e dirigir toda sorte de comentários toscos às mulheres. Quando questionados ou criticados não conseguem ouvir. Não acreditam que aquilo seja ofensivo. Colocar-se no lugar do outro? Ou da outra? Quase impossível. De onde estão não querem sair, são fortes, grandes e poderosos. Inquestionáveis, por vezes.

 

O serviço público, o primeiro setor, o mundo da política, principalmente, é o espaço “perfeito” pra isso. Mulher: coloque aquela roupa linda, use aquela maquiagem bacana e vá dar um rolê, por exemplo, no Congresso Nacional. Só não se esqueça de tomar uma boa dose de remédio para enjoo, pois você vai, certamente, ter vontade de correr para o banheiro e vomitar o ódio trazido pelas infâmias que vai ouvir. Se passar por certos políticos, bastante conhecidos por tais práticas, não escaparas daquele olhar “insinuante”, do sorriso mole e incapaz de segurar a dentadura. É assim pra cima de qualquer uma: servidora, jornalista, colega etc. Aberração! Tristeza que no século XXI ainda exista esse tipo de gente solta pelas ruas, carregando voto e a confiança do eleitorado. Vai ver o eleitorado não conhece, ou tampouco elege esse tipo de prática como algo incomum ou negativo. Esse país é mesmo um caso a ser tratado.

 

Mas o mundo dá voltas, e mulheres também conquistam poder e se preenchem de coragem. Reagem! Simpatia pela senadora e ministra Kátia Abreu? Não tenho nenhuma. Não é disso que estou falando. Mas bastou mais uma infame piadinha e o senador paulista José Serra tomou uma taça de vinho na cara. “Mais uma piadinha” porque a própria política disse, no Twitter, que a prática de infelicidades no jeito de brincar é recorrente e a vítima é machista. A “brincadeira elogiosa”, ou diríamos “o trololó”, sob a versão serrista, não foi bem recebida. Que bom! Alguém teve coragem de apertar PAUSE – duvido que as teclas STOP e EJECT estejam disponíveis na cultura brasileira, infelizmente – nesse tipo de ação tosca.

 

Mas não é apenas em Brasília que políticos têm sido vítimas desse tipo de ação. As razões são diversas, não somente o machismo, mas o desfecho é muito semelhante e protagonizado por mulheres. Em julho, ACM Neto, prefeito de Salvador, foi vítima de um copo de cerveja voador em evento de rua. A socióloga acusada e detida disse que o objeto escorregou e voou. Seria chamada para prestar maiores esclarecimentos, mas pelo visto não teve a intenção, ou ao menos não a revelou. Dois anos antes Jacques Wagner, hoje ministro, e então governador do Estado, sofreu um ataque semelhante no dia da Independência da Bahia. Um copo plástico, com água, lhe foi atirado por uma professora. Versões diferentes apontam que a algoz é produtora cultural e que o líquido era cerveja – estava na porta do bar, viu a comitiva oficial e “protestou”. Em 2012, em meio à caminhada eleitoral do hoje prefeito Jonas Donizete em Campinas, Geraldo Alckmin levou um copo de café. A mulher não foi identificada, e portanto a causa dificilmente será conhecida.

 

Em outras sociedades costumam voar sapatos sobre aqueles criticados. Mas a despeito do que seja atirado ou quais as razões para isso, é claro que existem formas mais civilizadas de protesto. É que tudo indica que tão inconsequente e natural quanto o gesto de achar que está fazendo a “coisa certa”, como na cantada, por exemplo, é a reação de quem age contra algo que discorda. Voltamos, nesse caso, ao começo desse texto. Estudos da Sociologia mostram também que nossa cordialidade desregrada nos transforma em ser impulsivo e violento. Infelizmente. Tão ignorante quando agir para gerar ódio é reagir de forma descontrolada – mas proporcional à aberração à luz dos valores que regem o algoz. Esse país é mesmo um caso a ser tratado.

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