Coisa de cinema

Humberto Dantas

22 de novembro de 2013 | 07h52

Quem chega a Los Angeles, estado da Califórnia, costa oeste dos Estados Unidos, logo sonha em ver, no alto da montanha, o célebre letreiro símbolo imortal do glamour da terra do cinema: HOLLYWOOD. Protegido por um labirinto de casas geniais e ruas bem policiadas, o escrito na montanha é isolado por cancela e portão: ótimos motivos para se dar meia volta. Assim, contente-se em ver tudo de longe.

 

Mas se a frustração for grande, o bolso estiver apertado, ou ainda se o inglês não estiver em dia e o passaporte não ostentar o visto de turista, tudo pode ser resolvido domesticamente. Aqui no Brasil temos Cabaceiras, localizada na Paraíba, distante 180 quilômetros da capital João Pessoa. Sua bandeira não tem três listras e a flâmula de seu estado carrega a palavra “nego” e não um urso californiano. Tudo bem. Quem se incomoda? A cidade com pouco mais de cinco mil habitantes, a despeito da ausência de Beverly Hills, encarnou o espírito do cinema depois que 25 filmes foram rodados por lá, com destaque para “O Alto da Compadecida” e “Cinema, Aspirinas e Urubus”. Assim, veja que não é pouca coisa o que tivemos naquela que se intitula, com letreiro imponente, Memorial Cinematográfico e tudo o mais, como: “Roliúde Nordestina”. Não poderia ser “brasileira”? Existira outra? Pouco importa. A questão importante a recordar é que Cabaceiras tem vocação para a coisa. Sua história, em um simples post no Wikipédia já vira roteiro de longa metragem.

 

A cidade nasceu como pedaço de sítio, virou fazenda, recebeu uma igreja e tornou-se povoado. Aqui o roteirista poderia ser, por exemplo, Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque de Holanda e suas descrições sobre a vida rural. Nesse caso, precisamos do patriarca. Uma pista vem do início do século XX, quando Manuel Maracajá governou a cidade por 15 anos seguidos. Diz a história que ele foi o único sujeito que morou na cidade por toda a sua gestão. Nossa! Sua ocupação principal? Coronel é claro. E o título do filme? Difícil definir, mas como ele contratou o professor Chico Pereira, perseguido pela Revolução de 30 e futuro marido de sua esposa… Que? Como assim? Simples: o coronel morreu, o professor ficou com a viúva. Mas algo parecido já foi filmado em Hollywood com John Wayne. A fita recebeu o nome de “O Homem que matou o facínora”. Opa lá! Quem disse que Maracajá era ruim? E onde está escrito que Pereira é assassino? Se o coronel dá nome ao logradouro que recebe o prédio da prefeitura ele deve merecer respeito. E se aproveitarmos a sede do Executivo local, o filme pode se chamar “Os opostos se atraem”. O roteiro, nesse caso, homenagearia as eleições de 2012, onde o ex-vereador Paulo Farias (PSD) e Gervásio (PPS), derrotados pelo candidato do PSB, formaram a chapa que carregou a dupla PT e PSDB unida em torno de um ideal. Qual seria? Simples: “nós podemos Cabaceiras” – nome da coligação. Podemos? O que? Rodar um filme mostrando o perfil heterodoxo das legendas? Pode ser. Mas precisamos encaixar uma personagem nesse roteiro: Camille Cabral. Franco-brasileira nascida em Cabaceiras e médica foi a primeira transexual eleita na França. Ocupou um cargo de vereadora nos arredores de Paris, pelo Partido Verde. Onde alocar isso no filme? Difícil de dizer, mas conta a lenda que ela nunca desembarcou em sua terra vestida de mulher. Aspectos associados à sexualidade ainda são vistos com dificuldades, infelizmente, em muitos lugares do Brasil. Natural é ver PT e PSDB juntos, né?

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