Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim?

Humberto Dantas

18 de abril de 2014 | 07h49

Uma vez estive numa instituição de caridade para realizar uma ação com um grupo de alunos do ensino médio. Partiu deles a arrecadação de recursos financeiros, a compra de ovos, as fantasias de coelhos e a tarde brincando com crianças de 0 a 6 anos em um abrigo. Não era exatamente o tipo de ação social que me sensibilizava, mas fui pego de surpresa. O menino sentado ao meu lado sentiu que ganharia um ovo. O “coelho” entrou na sala com uma cesta e os olhos dele brilharam. Quando a iguaria posou em seu colo a frase veio espontânea: “não acredito que vocês vão fazer isso por mim”. Olhei incrédulo, era “apenas” um chocolate comprado numa liquidação posterior ao domingo sagrado. Por um preço infinitamente mais baixo. “Não acredita por quê?”, perguntei sorrindo. E veio a resposta: “ontem meu pai disse que não conseguiu comprar um ovo para mim porque está sem emprego, e hoje ganho um. Estou muito feliz”. Emocionado falei que ele podia abrir e comer, era dele. “Que nada. Quero levar pra casa e comer com o meu pai!” Cai nas lágrimas. Como a desigualdade pega a gente de surpresa!

 

A partir de então entendi melhor porque prefeituras promovem ações dessa natureza no período. De maneira absolutamente racional, poderíamos defender que um estado laico não deveria celebrar um feriado religioso nas escolas. Ademais, se for pensar em parâmetros nutricionais relacionados ao “coelho” seria melhor distribuir a cenoura do que o chocolate. Mas essa racionalidade, por vezes, nos falta. E o valor de um sorriso como aquele? Alguns vão defender que se trata de uma rendição à lógica mercantil do feriado. Paciência. Esse é outro grave problema: o consumo… ahhhh o consumo. A despeito dele, em algum momento da história da cidade de Brotas-SP o prefeito distribuiu ovos nas escolas – pena que o portal oficial é tão desatento que não data suas notícias. Mas em 2013, Paulínia-SP separou 23 mil unidades para os estudantes, Dourado-SP, Paranhos-MS e Manuel Ribas-PR seguiram caminho semelhante. Em Cristais Paulistas, o prefeito entendia que o gesto difundia e fortalecia o espírito da Páscoa. Polêmico tudo isso? Certamente sim.

 

Mas se por um lado o gesto pode ser criticado, há prefeituras que consolidam o espírito da data de outra forma. As ações zelam pela capacitação para a geração de renda, economia ou para o entretenimento. Em São José dos Pinhais-SP, Bragança Paulista, Bananeiras-PB e São José dos Campos, por exemplo, as prefeituras realizaram cursos para a fabricação de ovos em 2014. Algo difundido pelo país, e que merece atenção, pois aproxima o poder público do cidadão por meio de ação educativa. Perfeito. Mas e quando a Páscoa é totalmente desvirtuada? O que ocorre quando corrompemos a data?

 

O evento ocorreu em Barueri, grande São Paulo. De acordo com o jornal Cidade em Alerta, o ex-prefeito Rubens Furlan (PSDB) foi condenado pela Câmara Municipal em 2013 e tornou-se, a partir de então, inelegível. Devem caber centenas de recursos, sobretudo em se tratando de um julgamento político. Mas suas contas de 2011 foram rejeitadas. Dentre vários apontamentos, o mandatário foi acusado de comprar e distribuir quase 78 mil ovos de Páscoa por mais de R$ 546 mil, algo próximo de R$ 7,00 por iguaria. Em 2006, por exemplo, ele já havia feito a alegria de quase 50 mil crianças. As contas dali parecem que foram aceitas, mas os comprovantes de 2011 não passaram pelo crivo do parlamento. Assim, o fato é que esse ano, com o prefeito Gil Arantes (DEM), o portal oficial da cidade mostra que a tradição achocolatada local está mantida. Começa o anúncio garantindo quase 67 mil ovos e termina contando mais de 80 mil iguarias, destacando a “boa marca” do chocolate. Como na tradicional música, podemos chegar a algo do tipo: “coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim: 60, 70, 80 mil ovos assim”. Assim como? Vai saber…