Cinto sujo de segurança

Eder Brito

20 de janeiro de 2016 | 23h05

Há dias tento encontrar alguma explicação para a esdrúxula ideia de um ser humano chamado João Madureira. Ele é vereador pelo PSC em Várzea Grande, no Mato Grosso, região metropolitana de Cuiabá. Em sessão extraordinária da Câmara Municipal, na quinta-feira passada, ele apresentou um projeto que sugere a proibição do cinto de segurança. Segundo o vereador, cintos de segurança sujam a roupa das pessoas. Simples assim. É esse o grande argumento que justifica a utilização de seu cargo, sua representatividade e, provavelmente recursos públicos para defender um dos projetos mais bizarros dos últimos tempos: sujeira. É o legislativo municipal transformado em propaganda de sabão em pó.

No vídeo da sessão, disponível no site da Câmara de Várzea Grande, é possível assistir à íntegra do discurso. Em tom de revolta, João ainda consegue denotar uma certa urgência, dizendo-se representante de “cidadões” (sic) que precisam chegar com trajes “apresentáveis” ao trabalho e não aguentam mais levar multa. Brada que os cintos sujam a roupa e precisam ser proibidos no perímetro urbano. Pela fala de encerramento parece apontar o projeto como sendo sua prioridade para 2016. Pelo tom de desespero, um desavisado também poderia pensar que os cintos de segurança em Várzea Grande são feitos de barro ou banhados periodicamente em fondue. Não é possível acreditar que há qualquer seriedade por trás de uma proposta como a dele.

Mais do que uma obrigatoriedade (muito clara no Art. 65 do Código Brasileiro de Trânsito, que o vereador parece acreditar que pode alterar a partir de uma lei municipal), o uso do cinto de segurança transformou-se em um hábito, não muito antigo, devo reconhecer. Lembro-me de andar no fusca do meu tio no começo dos anos 90 e das reclamações do “cinto que apertava” ou de como isso era “truque do governo” para aplicar multas e “pegar mais dinheiro do povo”. Pois é… o termo “indústria da multa” não é uma invenção paulistana do século XXI.

Décadas depois, sabemos das milhares de mortes evitadas e uma indústria automobilística adaptada a esse hábito, com veículos que já possuem dispositivo de alerta para motoristas que “esquecem” de colocar o cinto. E agora o país já tem certeza de que o cinto não é um um jeito do governo “roubar dinheiro”. Procure notícias sobre o uso de cinto de segurança na China, compare e veja o quanto evoluímos. Você vai encontrar notícias dos últimos três anos, mostrando um país em que são vendidas camisetas com o “desenho” de um cinto de segurança, cuja finalidade é enganar fiscais que aplicam multas.

Por mais que figuras como João Madureira tentem, não há espaço para retrocessos desse porte. Para não vomitar meu jantar de desgosto, prefiro imaginar que ele só quis fazer o que já conseguiu: chamar a atenção, no início de um ano em que sua tentativa de reeleição é certa. O maldito conseguiu. Redigi o texto todo pensando nele. Representou muito bem o PSC, partido cujas lideranças no cenário nacional não representam exatamente o que há de mais inovador na gestão pública e na política.

Algumas outras inovações, no entanto, ainda sofrem com o preconceito, como se estivéssemos ao lado do meu tio, no fusquinha pré-Tetra de 94. São mudanças que provavelmente precisarão de um tempo parecido (espero que não!) para serem finalmente assimiladas. Ciclovias, Uber, táxis, novos limites de velocidade no perímetro urbano e a prioridade para o transporte público fazem parte de um pacote de temas que sofrem algum tipo de preconceito em qualquer cidade brasileira. Será que conseguimos evoluir mais rápido do que o tempo que levamos para entender o cinto de segurança? #SomosTodosJoãoMadureira?

Em tempo: quero muito me lembrar de voltar a falar do fulano no final de 2016, para saber se foi reeleito, riscar Várzea Grande do mapa das cidades onde gostaria de dirigir e incluí-la no mapa de cidades cujos eleitores merecem uma bela bronca.

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