Cidades-refúgio

Eder Brito

09 de setembro de 2015 | 15h40

As pessoas não vivem em países, não moram nos Estados e nas Províncias. As pessoas vivem em cidades. Quase diariamente, alguns amigos e eu pegamos emprestada essa ideia, originalmente proferida por Franco Montoro, saudoso estadista e político brasileiro. Utilizamos a expressão para enfatizar a importância dos municípios na Federação brasileira, mas ela também pode se aplicar a qualquer país, em quaisquer modelos de organização territorial e política. É nas cidades que a vida acontece e é lá que as comunidades constroem e reconhecem sua identidade.

E é de cidades sírias que estão fugindo milhares de seres humanos, em busca de outras cidades que possam acolhê-los. A guerra está destruindo municípios, condados, distritos, vilas, bairros, comunidades, famílias e todas as noções mais básicas de divisão territorial que conhecemos e que os sírios conheciam. As cidades deixam de ser os espaços de convivência e se tornam meros espaços físicos, sem identidade e sem esperança.

Temos acompanhado o posicionamento e ação dos governos centrais ao redor do mundo, mas vários governos locais do mundo também têm apresentando seus planos de ação, demonstrando que compreendem que nossos problemas globais também são nossos problemas locais. Berry Vrbanovic, prefeito de Kitchener, cidade canadense, veio a público na semana passada oferecer apoio, estrutura e toda a ajuda necessária do governo local da cidade de 190 mil habitantes. Berry, cujo sobrenome denuncia ascendência europeia, lembrou de todas as outras vezes que a cidade já se mobilizou em torno de outras tragédias globais e em sua carta de compromissos avisou que já está mapeando as lideranças comunitárias locais que estão acostumadas a auxiliar nesses momentos. E Kitchener já teve outro nome. Chamou-se Berlim durante todo o século 18 e início do século 19, quando tinha uma maioria de população alemã. Isso diz muita coisa. A Federação de Municípios Canadenses também já se posicionou em conjunto, em um movimento “de baixo pra cima” que chama atenção.

Na Espanha, La Red de Ciudades Refugio, reunião de municípios e cidades de diversos tamanhos no país também já se reuniram para demonstrar que os territórios estão prontos para acolher refugiados, em meio a uma das maiores crises humanitárias que nosso século já presenciou. Na Inglaterra, o movimento City Sanctuary nasceu em Sheffield, com o apoio do governo local. O objetivo é desenvolver uma “cultura de hospitalidade”, unindo iniciativa privada e organizações da sociedade civil em torno da mesma missão: receber bem as pessoas que buscam asilo e refúgio em suas cidades. O movimento já tem “santuários” em outras localidades do país. A UCLG – United Cities Local Government – organização não-governamental com sede em Barcelona trabalha em prol do fortalecimento de governos locais ao redor do mundo e também tem atuado em prol da sensibilização de prefeitos em todo o planeta.

Na cidade de São Paulo, nós também já estávamos trabalhando nisso, mesmo antes da triste foto do garoto na praia. Em 2013 nasceu a Coordenadoria de Políticas para Imigrantes, como um dos braços da Secretaria Municipal de Direitos Humanos. Surgiu com a preocupação de reconhecer os novos fluxos migratórios que têm o município como destino e trabalhar pela garantia de direitos dessa “nova” população. Já realizou até sua Conferência Municipal, no final do mesmo ano de 2013 e viu conselheiros estrangeiros sendo eleitos para participarem mais diretamente da gestão dessas novas políticas. Os haitianos talvez tenham sido o grande símbolo desse período. Mas além deles, também já estavam lá os sírios, bolivianos, peruanos e vários imigrantes de nações africanas.

Seria ignorância histórica e desrespeito à nossa formação cultural, social e econômica não desejar que nossos governos locais participem ativamente desse momento na história do mundo. Sempre nos perguntamos os porquês de todos terem se calado diante de tantas atrocidades que aconteceram há 50, 70, 100 anos atrás… Sempre tentamos entender porque permitimos que certas situações atingissem o pior patamar possível. Pois agora temos a chance de participar. Os problemas dos quais falamos estão acontecendo nesse exato momento. E a Prefeitura de sua cidade e a Câmara Municipal continuam muito mais próximas de você do que Brasília.

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