Cidades Machistas

Eder Brito

11 de fevereiro de 2016 | 12h00

Duas amigas estão na mesa de um bar, tomando cerveja e conversando com seu grupo de amigos machos. Quando os amigos, todos homens, se levantam da mesa para fumar na área externa do local, deixam as duas “presas” femininas à mercê dos outros machos predadores que ocupam o bar. Foi a deixa para que elas fossem “atacadas” por uma dupla. Os dois homens se sentaram à mesa sem ser convidados e começaram a tentar “puxar papo”, insistentemente, enquanto as moças sugeriam que eles se retirassem dali. Ignorados, os machos não aceitaram e passaram a ofendê-las verbalmente. Um deles teria até apertado o braço de uma das moças com mais força. Vem o pedido de auxílio das vítimas aos garçons e ao gerente do local, todos homens. Eles ignoram tudo, segundo elas. O meu relato está totalmente baseado no que uma usuária do Facebook, uma das supostas vítimas, redigiu e compartilhou, gerando uma onda de comoção e engajamento nas redes sociais.

O Quitandinha Bar, na Vila Madalena, em São Paulo, já pediu desculpas. Também já afirmou que “nunca antes na história” daquele lugar houve qualquer tipo de problema envolvendo assédio sexual ou violência contra a mulher. Difícil de acreditar, já que estamos falando de bar, consumo de álcool e, no caso do ocorrido na semana passada, também estamos falando de carnaval. Muito triste que eu tenha que utilizar “supostas” antes da palavra “vítimas” no final do primeiro parágrafo.

Menos de uma semana depois, o Instituto Data Popular apresentou resultado de pesquisa realizada em 146 municípios, com 3,5 mil pessoas. Uma das conclusões: 49% dos entrevistados acreditam que mulheres participantes de blocos de carnaval não podem ser consideradas mulheres “direitas”. A mesma pesquisa mostrou que 61% dos homens acham que mulheres solteiras que decidem participar de blocos não podem se manifestar contra possíveis cantadas. A pesquisa foi realizada como forma de contribuição para a campanha Carnaval Sem Assédio, promovida pelo site Catraca Livre.

Em meio a tudo isso, há quem questione a existência de secretarias municipais exclusivamente voltadas à implementação de políticas públicas para mulheres. São Paulo, Natal, Rio de Janeiro, Campo Grande, Goiânia, Londrina… é possível encontrar exemplos desses órgãos em todo o Brasil. Em São Paulo, a secretaria instituiu a Campanha “Folia Sem Machismo”, durante o carnaval, a fim de oferecer um plantão de orientação para atender a vítimas de assédio e violência.

Enquanto isso, Ribamar Alves, prefeito de Santa Inês, município no Maranhão, está preso, acusado de estupro de uma jovem de 18 anos. A jovem vendedora de livros aceitou carona do político, que a levou para o motel, sem sua permissão. A moça também diz que chorou durante todo o ato, deixando claro que não queria fazer aquilo. O político do PSB, de 60 anos, é reincidente e já havia sido acusado de assediar sexualmente uma juíza do município. Ele alega que o sexo ocorreu com o consentimento da vítima. Ribamar é só mais um dos políticos brasileiros que acredita que o seu cargo o torna atraente para qualquer mulher. É só mais um dos machistas brasileiros que culpa a vítima pelo crime cometido. E Santa Inês ainda não tem uma Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres.

Termino o rascunho do texto no celular. É terça-feira de carnaval e pego o táxi em direção ao meu bairro, onde chego tentando atravessar mais um bloco que lota as ruas. O motorista, impaciente, olha as garotas com seus shorts curtos, atitudes alegres e dispara: “A mulherada fica louca no Carnaval! Olha só! Ficam dando que nem loucas e depois saem reclamando, tentando descobrir quem é o pai”. Meu estômago embrulhou e eu só tive tempo de pagar e descer do táxi. Quis dizer tanta coisa, mas, como uma vítima, me vi anestesiado pelo peso do preconceito e da violência daquela atitude. E o tamanho da minha vergonha por não reagir e da minha raiva pela coragem dele em se expressar me fizeram entender um pouquinho mais disso tudo.

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