Choro de perdedor

Humberto Dantas

25 de abril de 2014 | 08h22

A eleição presidencial de 2010 foi marcada por uma série de erros do PSDB. A laje fake foi uma das representações teatrais mais ridículas da dramaturgia eleitoral. O discurso afirmando que Serra e Lula eram amigos, o personagem do programa de rádio com a voz do então presidente e o desejo de confundir o eleitorado são notáveis. Mas, se algo planejado pode ficar ruim, imagina quando se aproveita uma situação inusitada sem potencial explosivo para a criação de um fato. Tragédia. E foi assim com a tal “bolinha de papel”. O episódio teve repercussão dramática, sobretudo antes de descobrirmos o que era o objeto. Dia 20 de outubro de 2010, em caminhada pelo bairro carioca de Campo Grande, um grupo que acompanhava Serra se deparou com petistas que tentavam impedir o passeio. No tumulto, sobrou uma bolinha de papel na cabeça do tucano. Quem jogou? Impossível dizer. O footing acabou com o presidenciável num hospital para a realização de exames na cabeça! O Brasil foi apresentado à tese da agressão, quase um atentado. Nada justifica a hostilidade, mas é fato que o candidato passou a ser ridicularizado por seus adversários. Era só uma bolinha…

 

Os petistas mais radicais gritaram que o episódio era manha de tucano perdedor. Dilma venceria o pleito dias depois. Mas pode tirar o “tucano” da frase acima. O gesto era estratégia para vitimizar quem estava atrás nas pesquisas, e ocorre entre membros de todos os partidos. Basta estar em desvantagem e pronto! Lá vem a choradeira. Em Pradópolis, interior de São Paulo, por exemplo, o ex-prefeito Luís Otávio (PSDB) estava atrás do mandatário Nê da Prefeitura (DEM) em 2008. Além da briga por votos nas ruas, processos corriam das duas partes buscando a impugnação do adversário. Foi quando saiu a decisão de tirar o tucano da disputa. Otávio espalhou carta dramática pela cidade, fazendo-se de vítima. Dizia querer “apenas competir de forma democrática”. Tadinho, perdeu.

 

O exemplo, no entanto, não ajuda. O fenômeno continua no campo tucano. Mas em Manaus foi diferente. Em 2012, o episódio conhecido como a “farsa do ovo” ganhou notoriedade. A senadora pelo PC do B Vanessa Grazziotin disputava a prefeitura contra o ex-senador Artur Virgílio Neto (PSDB). Dois anos antes ela ficara com a vaga dele no Senado. Mas quando sentiu que não repetiria o sucesso, apelou. No fatídico dia 11 de setembro, a candidata chegava a um debate no SBT quando foi agredida pelo que afirmou ser um ovo. Quem jogou? Impossível dizer. Mas a partir daí acusou o adversário. Assim como Serra, Vanessa foi atingida por algo. E tão dramática quanto o ex-presidenciável, atacou. Nada de hospital. Reclamou ao vivo, em pleno debate, e voltou ao Senado. De lá envolveu até a presidente Dilma, que solidária gravou mensagem para sua campanha. Vanessa afirmou ter sido vítima do mais absurdo ataque da história: “sofri uma agressão como nunca a cidade de Manaus viu nos últimos tempos”, bradou da tribuna. “Nunca” ou nos “últimos tempos”? Não importa, o fato é que dias depois um dos coordenadores de campanha de Artur foi assassinado a tiros! Ademais, o ovo virou… cuspe. Isso mesmo: não existiu ovo, foi cuspe. E como aponta Noblat em seu blog, seria razoável distinguir ambos em um restaurante: “solta um ovo!”, “só tem cuspe, serve?” – ironiza o jornalista. No desespero, na véspera da derrota, bolinhas de papel e cuspes tornam-se atentados. São, de fato, símbolos de um povo muito mal educado e visceral demais nas campanhas, o que é lamentável e abominável. Mas o resto é drama barato. É choro de perdedor.