Caxambu, Paradise City

Eder Brito

13 de julho de 2016 | 08h01

Hoje é Dia Mundial do Rock, mas, oficialmente, a data só é celebrada no Brasil. A celebração é inspirada no 13 de Julho de 1985, quando o Live Aid, mega festival de rock’n’roll foi realizado em Londres e na Filadélfia para arrecadar fundos em prol dos famintos da Etiópia. A causa foi nobre, mas sempre achei que a efeméride poderia ser mais representativa, musicalmente falando. Dia Mundial do Rock que não considera Elvis Presley? Não olha para as raízes do blues norte-americano? Nem considera os Beatles e os Stones? Tirando um Queen ou outro, o festival teve coisas do tipo Elton John, Phil Collins e um monte de artistas que transitavam muito mais na esfera pop do que no rock’n’roll. Do meu exagerado viés de fã, diria até que o dia 24 de setembro de 1991 seria mais representativo. Se fosse para lidar com algo mais “contemporâneo”, então que celebrássemos o lançamento do Nevermind. Há quem diga que a data de lançamento do primeiro trabalho dos Strokes também já está merecendo mais atenção, considerado o quesito “álbuns que mudam a coisa toda”. Mas não sou eu quem decide essas coisas.

 

No Brasil, a data “pegou” a partir dos anos 90, quando duas rádios de programação rock começaram a comemorar o 13 de Julho. Pegou tanto que chegou até à política municipal. De lá pra cá, muitas Câmaras Municipais decidiram aprovar leis para celebrar o rock’n’roll em nível local. Em Mesquita, no Rio de Janeiro, uma lei municipal instituiu o Festival Semana do Rock, anualmente realizado em julho. Em Itatiba, no interior de São Paulo, o Dia Municipal do Rock foi instituído em 2013. Em 2011, a cidade de Santos, berço de muitos músicos de várias gerações recentes do rock nacional, também instituiu um Dia Municipal para celebrar o gênero. Mais recentemente, São Bernardo do Campo, no ABC paulista, também tem um Dia Municipal exclusivo para o rock. A lei foi aprovada recentemente, no finalzinho do mês de junho. Apesar do axé e de outros ritmos menos afeitos a guitarras distorcidas, até Camaçari, na Bahia, tem um Dia Municipal do Rock. A diferença por lá é que a cidade decidiu celebrar em 21 de Agosto, aniversário da morte de Raul Seixas. Toca Raul, certamente.

 

Quem inovou mesmo foi Caxambu, cidade de Minas Gerais. No último mês de abril, a Câmara Municipal aprovou o Dia Gunner, lei municipal que estabelece a realização anual da Gunner Convention, exclusivamente em homenagem ao Guns N’ Roses. A programação tem atividades culturais especialmente planejadas para celebrar a banda de Axl Rose e Slash. O festival foi realizado no último final de semana, com apresentações de bandas tributo, exposições de raridades, painéis de discussão e até cover-mirim de Axl Rose (procure pelo pequeno Dinho Rose, 8 anos de idade no YouTube e encontre um novo significado para a expressão “Sweet Child O’Mine”) e até a Cavalgada Gunner, tudo em homenagem ao grupo. Provável que também tenha sido comemorada “a volta do Guns”, a recente turnê do grupo, reunindo membros originais da banda depois de pelo menos 15 anos com formações “questionáveis”, capitaneadas por Axl. A Prefeitura e a Câmara Municipal celebram o potencial turístico da Gunner Convention, considerado o único festival do tipo no mundo. É Caxambu enquanto Paradise City por um final de semana, todo mês de julho, evitando a November Rain. E quanto à política municipal, all we need is just a little patience. E peço perdão pelas inevitáveis piadas e trocadilhos. Don’t Cry.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.