Canta canta, minha gente!

Eder Brito

30 de abril de 2014 | 12h35

Por Eder Brito

Existe uma relação pouco analisada na cultura política brasileira. É a complicada interação entre Prefeitos e cantores. A Lei 11.300/2006 já proibiu os candidatos de realizarem os chamados “showmícios”, eventos em que artistas eram contratados para dar uma forcinha na divulgação de candidaturas. Mas isso não significa que, depois de eleitos, os Prefeitos não continuem buscando os artistas para outras “ações de governo”. E também não significa que a relação é harmoniosa.

Uma das mais recentes polêmicas envolveu o cantor Romeu Januário de Matos, o Milionário, famoso pela dupla sertaneja formada com o amigo José Rico. Ele e Ronaldo de Azevedo Carvalho, ex-Prefeito de Santa Rita do Sapucaí foram condenados pela Justiça, acusados de superfaturamento de um show. O espetáculo que a dupla fez em comemoração ao aniversário da cidade teria custado  33 mil reais, mas foi pago com um cheque de 57 mil reais. Milionário diz que assinou o contrato sem saber da mudança de valores e culpa a equipe do prefeito.

Em Alagoas, o enrosco foi com Davi Sacer, famoso cantor gospel. A Prefeitura de Matriz de Camaragibe registrou um boletim de ocorrência contra o cantor, acusando-o de ter recebido 25 mil reais adiantados e não ter comparecido para um show agendado. O show seria realizado em celebração ao dia de emancipação do município e em celebração ao recém-promulgado Dia Municipal do Evangélico, instituído em 2014 pela Câmara de Matriz de Camaragibe. A equipe do cantor diz que a confusão ocorreu porque o dinheiro foi depositado em uma conta errada, ignorando orientações do contrato.

Latino, dono do famoso hit do “apê”, também se envolveu em confusão com um político. No Twitter, o cantor disse que o Prefeito de Nazareno-MG, José Heitor Guimarães de Carvalho teria orientado policiais a agredirem seguranças e membros de sua equipe. O motivo? Latino não queria atender com exclusividade aos familiares do Prefeito (que também estaria alcoolizado durante o evento) antes de atender a outros fãs no camarim. Em campanha pra reeleição na época, o Prefeito, claro, negou as acusações.

Outro Prefeito mineiro teria agredido o cantor sertanejo Vitor Hugo. O músico foi à residência de Ronaldo Resende Ribeiro, Prefeito de Oliveira-MG cobrar o cachê (atrasado) devido por um show realizado na festa de aniversário da cidade. Segundo o cantor, a agressão ocorreu quando ele entrava no carro pra ir embora, depois de saber que o Prefeito não o receberia. O Prefeito também nega as acusações, diz que vai processar o sertanejo e que “achou um absurdo” o fato do cantor ir até sua casa cobrar o valor.

Em Bom Despacho, também em Minas, um cantor e o Prefeito foram considerados inelegíveis pela Justiça Eleitoral por oito anos. Isto aconteceu depois de um show em que o cantor, contratado pela gestão e pago com dinheiro público, teria incitado os espectadores do evento a vaiarem um vereador da oposição. “Uma festa como esta gera emprego para muita gente. E a gente sabe da história do político, do vereador aí que criou o maior caso e que faz parte da oposição e que queria que a festa não acontecesse. Pensou muito mais no seu próprio umbigo do que no povo. Então para esse cara que quis atrapalhar uma festa destas, uma vaia bem grande”.

A ação do Ministério Público tem a transcrição do discurso do cantor no palco, mas não deixa claro quem é o artista. A lição é clara, no entanto. Vaia para a falta de democracia que, mais uma vez, agonizou.