‘Calheiraslândia’ – o reino dos Calheiros!

Camila Tuchlinski

22 de julho de 2016 | 09h18

Renan Calheiros é presidente (até o momento) do Senado. Está bem próximo da linha sucessória presidencial da República. Mas o poder de Calheiros não se resume a esfera federal. E, de fato, esse pode ser definido no plural: os poderes dos Calheiros. Já que o assunto predominante aqui no espaço de sexta é política municipal, vamos viajar à um município que fica a 50 quilômetros de Maceió, capital de Alagoas.

Murici tem 27 mil habitantes. O perfil socioeconômico do local é uma réplica fiel do coronelismo de outrora. Um terço dos moradores não são alfabetizados. A taxa era de 43,46% em 2000, segundo o IBGE. O IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, é de 0,58. A escala vai de 0 a 1. A cidade não tem a atenção do resto da população brasileira, a menos que haja uma catástrofe. No entanto, há uma peculiaridade: o município é administrado por mais de 30 anos pelo clã dos Calheiros. Das três décadas, duas foram de poderes ininterruptos da família. A história começou em 1980, quando major Olavo, patriarca dos Calheiros, conquistou a prefeitura pela primeira vez. Foi dele a ideia de distribuir peixes aos pobres na Semana Santa. A prática foi repetida neste ano, em 2016, pelo atual prefeito de Murici, Remi Calheiros, do PMDB. Foram distribuídas 20 toneladas de pescado! Assistencialismo é o que não falta na cidade. Ah, a Secretaria de Assistência Social é administrada por um Calheiros também, esposa do prefeito, Soraya Calheiros, cunhada de Renan.

Você pode estar imaginando qual a vantagem em passar o comando de uma cidade cuja população é predominantemente pobre de geração em geração, para uma mesma família. A renda gerada pelo povo não é o motivo. O “filé” do lucro mesmo vem do governo federal. Só em 1996, a prefeitura recebeu R$ 40 milhões da União por meio de convênios. E por aí vai, de geração em geração, abocanhando verbas federais…

No fim do ano passado, o prefeito Remi Calheiros ficou exaltado com um adversário político local, que o acusou de promover o coronelismo na região. O deputado federal João Henrique Caldas, o JHC, usou suas redes sociais para dizer que foi agredido verbalmente pelo Calheiros. A confusão aconteceu durante a visita do parlamentar à comunidade Portelinha, na periferia do município: “Vi de perto o sofrimento e a miséria do povo na cidade do governador e do presidente do Senado e não vou me calar em relação a esse absurdo. Alagoas não é terra sem lei, esse tipo de atitude medieval tem de ser combatida. Não vou arrefecer da minha luta”, finalizou o parlamentar. Se você quiser assistir a confusão, eis o vídeo: https://youtu.be/ZfVFMFG1dNU

Até quando a cidade de Murici será uma “Calheiraslândia”? Até quando o sofrimento de um povo servirá de ferramenta para os desmandos e a exploração de um clã político? Até quando, Brasil?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.