Vereador na cadeia!

Humberto Dantas

01 de fevereiro de 2016 | 10h52

Políticos, até mesmo políticos, olham pra Câmara dos Deputados e dizem que por lá existem uns 300 picaretas. Para o senso comum, que não tem a dimensão do número exato de membros porque não aprendem isso na escola, seriam 513 – o total de deputados federais brasileiros. Mas por que insistimos tanto em olhar pros federais? Se em Brasília são 300 ou 513 picaretas, nas cidades seriam cerca de 60 mil malfeitores distribuídos em mais de 5,5 mil câmaras municipais atendendo pelo nome de vereador? Não gosto dessas generalizações. Se for pra extrapolar desse jeito prefiro afirmar que somos 145 milhões de cidadãos pouco preparados pras escolhas políticas que a democracia representativa nos empresta como direito. Problema grande! Problema muito mais perto de nós do que as distâncias entre Brasília e Mâncio Lima (AC), Atalaia (AM), Uiramutã (RR), as cidades, sob diferentes critérios, mais distantes da capital federal. Ou seja: o problema está ao nosso lado. Vamos resolver, como sugerimos nesse blog faz alguns anos, as coisas próximas. É mais fácil.

Mais fácil, mas igualmente desafiador. E na última semana dois exemplos deprimentes mostram que o problema reside ao lado de casa. Em Rosana, cidade mais distante da capital paulista, cerca de 780 quilômetros de São Paulo-SP, cinco vereadores foram afastados por peculato da Câmara Municipal. O motivo? Utilização indevida de verba pública, sob a forma de diárias de viagens, onde não foram comprovados quaisquer interesses públicos que justificassem os gastos. Em alguns casos, inclusive, os parlamentares se envolveram com prostitutas e, em telefonemas grampeados pelas investigações, vibravam com a qualidade dos programas realizados em conversas com servidores que também foram afastados. Bizarro! Bizarro mas nada diferente do que ocorre em muitas cidades brasileiras. Infelizmente. As verbas de representação são fragilmente fiscalizadas. E em muitas cidades que adoram aparecer no noticiário como aquelas em que eticamente os vereadores reduziram seus salários, esse tipo de subsídio é o que costuma compensar o “gesto benevolente”. Com um detalhe: sem incidência de impostos sobre a folha de pagamento. Olho vivo!

Voltando à Rosana, em dois anos foram cerca de R$ 350 mil em diárias. Claro que em alguns casos a coisa deve ter ocorrido de forma correta e justificável. O maior usuário dos benefícios foi o presidente da casa, o tucano Roberto Fernandes Moya Júnior, que torrou quase R$ 90 mil em aproximadamente 30 viagens e foi captado pelas escutas vibrando com seus feitos sexuais.

Ainda nesta semana todos. Isso mesmo: TODOS os vereadores de Centralina, Minas Gerais, foram enjaulados por mau uso do dinheiro público. Como funcionava o esquema? Falsificação de situações em que se “justificavam” diárias de viagens. Uma ida à capital custava R$ 700 por dia, por exemplo. Mas ninguém viajava, apenas recebia. Belo incremento salarial, mas assim é crime. E lá se foram cerca de R$ 200 mil com a farra. Oito parlamentares fizeram acordos, vão devolver o montante e renunciarão ao mandato. Pela lógica de nosso sistema proporcional devem assumir os suplentes. E a questão é saber se vem aí um time de pessoas probas ou se teremos apenas cidadãos que “aguardam a vez na fila”. Detalhe: infelizmente nada de novidade em relação ao contingente enclausurado. Em Joaquim Gomes, Alagoas, oito vereadores foram presos durante sessão em 2014. De acordo com o vídeo, a polícia chega e leva pro camburão. A população, fora da casa, vibra. Motivo? Aqui outra questão bastante comum pelo país: o que se batizou de mensalão – outra forma de “incremento nos vencimentos”. Os vereadores eram acusados de venderem suas posições para o atendimento de interesses do Executivo. Isso serve pra que nós, comuns, não sonhemos em resolver algo apenas na distante Brasília. Os problemas estão no quintal de nossas casas. E se acertarmos isso começaremos, pela base, a perceber o quanto podemos e devemos limpar o que entendemos estar sujo faz décadas: a política.

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