Cabeça de Pacu

Humberto Dantas

21 de abril de 2014 | 07h54

Esse post é sobre Tiradentes, nossa homenagem àquele que morreria como herói nacional. Para tanto, não trataremos de Cidade Tiradentes, bairro do extremo leste de São Paulo, mas da cidade de Tiradentes. Nesse caso, um detalhe. Não estamos falando de Novo Tiradentes, no Rio Grande do Sul, fruto do que o site do município chama de muito trabalho, suor, picadas abertas no facão e ajuda de Deus para a emancipação que ocorreria em 1992. Tampouco falaremos de Tiradentes do Sul, também gaúcha, que no passado se chamou Canafístula. Como alguém pode lembrar que é canafistulense? A criança vai conseguir dizer isso de forma rápida e correta com menos de 10 anos de idade? A homenagem pode até ser justa. Afinal, quem nunca se encantou com a florada amarela da Cássia Imperial? Isso mesmo: a canafístula! O nome, no entanto, foi deixado de lado. A história conta que num evento que teve toco de árvore como palanque um cidadão reclamou, sugeriu o mártir e foi atendido pelo prefeito que estava na plateia. Assim foi!

 

Já em Minas Gerais existe a Tiradentes mais próxima do dentista Joaquim José da Silva Xavier, natural de Ritápolis, a 26 quilômetros da terra que o homenageia. Mas o respeito que se tem pelo herói hoje é bem mais recente que sua morte. O Império não gostou do movimento inconfidente e o dentista pagou com a vida. Seu corpo foi utilizado como símbolo da força oficial em 1792. Esquartejado, seus pedaços foram espalhados e sua cabeça exposta em praça pública na então capital da província, Ouro Preto. O espetáculo, entretanto, durou pouco. O cefálio foi logo guindado do pedestal. Pelos planos, devia ter ficado lá até apodrecer, mostrando a força do governo central. Mas transformou-se em mistério. O que foi feito da cabeça? Resposta precisa não há, mas uma representação dela voltou para a praça. Até que em 1992, dois artistas plásticos resolveram reeditar o roubo. Ambos entenderam que 200 anos depois a história precisava se repetir para a homenagem ser completa. Se em 1792 a cabeça sumiu, no bicentenário a cabeça falsa foi retirada. Sem o mistério de outrora, os dois foram facilmente descobertos e levados pra delegacia.

 

E cabeça parece mesmo ser algo destacável na história de Tiradentes, o dentista inconfidente. Na cidade que leva seu nome, distante cerca de 160 quilômetros de onde o cefálio foi roubado, as eleições de 2012 foram disputadas voto a voto. Melhor dizendo: cabeça a cabeça. Ralph do PV venceu, com 50,7% dos votos válidos, o tucano Zé Antônio do Pacu. Foram parcos 68 cidadãos de diferença. Menos que os 98 brancos, os 233 nulos e as 463 abstenções. Isso mesmo: cabeça a cabeça, num páreo em que as pesquisas apontavam empate até meados de setembro. Os dois empresários tinham pouco menos de 40% e índices semelhantes de rejeição de acordo com o Portal 007. Não era isso o que diria, no entanto, um blog tucano intitulado “PSDB-MG nas eleições 2012”. Ali, em pleno dia 03 de outubro, um post dava a vitória de Pacu como certa. Isso porque as pesquisas lhe atribuíam mais de 50% dos votos contra 30% de Ralph. O que teria ocorrido na calada da noite? Em sentido figurado, roubaram a cabeça de Pacu? Parece que cantar a vitória não é atitude razoável na política. Se bem que em véspera de pleito, muitas cidades assistem “o que pode e o que não pode”. Assistem “ao diabo”, diria a presidente Dilma. Assim, se o Império desabaria 30 anos depois de se vangloriar da morte de Tiradentes, Ralph foi eleito, mesmo com o PSDB noticiando a vitória de Pacu.