Black Mirror

Eder Brito

16 de novembro de 2016 | 16h31

Tem sido muito difícil escrever. As eleições municipais passaram e outubro deveria ter sido um período inspirador, cheio de reviravoltas e peripécias partidárias, muita lenha para botar na fogueira dos palpiteiros políticos, lugar em que eu também me coloquei, ainda que não tenha a formação mais adequada para tal. Culminando com a eleição de Donald Trump, teríamos também um período super interessante para análises, debates e previsões presunçosas sobre a democracia representativa. Mas não foi possível. Não consegui. As notícias trouxeram o desânimo.

 

Uma semana depois de ter sido eleito, o futuro Prefeito de Monte Belo do Sul-RS, Sr. Adenir José Dalle, foi preso por porte ilegal de arma. Logo ele que já vinha sendo investigado por desvios dos cofres públicos em outras gestões. Paulo Mac Donald, candidato em Foz do Iguaçú, foi o candidato que mais recebeu votos, mesmo com candidatura impugnada, condenação por enriquecimento ilícito, dano ao erário e improbidade administrativa.

 

Em Ibatiba, no sul do Espírito Santos, Carlos Alberto dos Santos, o Beto da Saúde, está preso desde setembro, mas teve 999 votos (capricho numérico do destino) e foi o vereador mais votado do município. Está na cadeia, ainda não condenado, por corrupção e improbidade administrativa. Na Bahia, em Ubaituba, Messias Aguiar foi preso com 270 kg de maconha e 2 kg de cocaína, alguns dias depois de ter sido eleito como vereador da cidade.

 

Fiquei remoendo forçosamente essas notícias e minha cabeça foi tomada por perguntas, algumas óbvias, outras mais profundas. Por que votamos nessas pessoas? Por que ainda elegemos esse tipo de indivíduo? Como assimilar a Lei da Ficha Limpa e lidar com casos assim simultaneamente? Como um país que brada pela deposição de uma Presidente por conta de problemas fiscais bem mais complexos de entender, não consegue enxergar essas outras coisas, aparentemente mais graves, mais fáceis de se perceber e mais próximas da realidade das pessoas?

 

Com todas essas incômodas perguntas ainda em mim, assisti um episódio da ótima série “Black Mirror”, uma das melhores descobertas dos últimos feriados chuvosos. A série é um verdadeiro tratado sobre humanidade e tecnologia, mas acaba esbarrando propositalmente em vários outros assuntos, inclusive na política. No episódio “The Waldo Moment”, a série trata de Waldo, um personagem de desenho animado que acaba se popularizando demais e é transformado em candidato durante eleições locais. Um grupo de “atores sociais” e “instituições” acaba se apoderando da popularidade do personagem virtual e o transforma no político personagem, aquele inventado para dizer e fazer o que as pessoas querem ouvir do alto de sua descrença na democracia. É o candidato “meio real, meio virtual”, criado para ser divertido, para fazer rir, mas claramente sem capacidade, claramente sem interesse na política real, querendo apenas tumultuar, porque sabe que se transformará numa imagem facilmente agradável perante quem não acredita em mais nada. Simplificando bastante: Waldo está para aquele episódio como Tiririca estava para as eleições de 2010.

 

Mais grave do que não se preocupar, ignorar, entrar na onda engraçadinha de um “personagem” ou perder o ânimo para se engajar, é sabotar o processo, a ponto de eleger vereadores e prefeitos que estão envolvidos em impasses com o Judiciário ou até efetivamente presos. Já demos esse passo negativo a mais durante as eleições de outubro, em várias cidades do país. Antes ficássemos na brincadeira, usando os Waldos e Tiriricas como símbolo (teoricamente mais inofensivo) da nossa falta de esperança e desânimo, sem precisar entregar nossas instituições nas mãos de quem claramente não fez por merecer. Por que ainda elegemos essas pessoas? Acho que a resposta precisa ser dada de frente para um espelho.

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