Bateu na mulher e foi às urnas

Humberto Dantas

16 Novembro 2015 | 07h22

O título desse artigo faz alusão a um clássico do cinema underground brasileiro, filme que teve duas versões, a primeira de 1969 e a segunda de 1991. Falo de “Matou a família e foi ao cinema”, em que o jovem personagem Bebeto (Antero de Oliveira em 69, e Alexandre Frota, ele mesmo, em 91) discute com os pais, os assassina de forma fria e impassivelmente vai ao cinema. É essa impassividade que assombra, e é sobre ela que precisamos refletir. O sentido maior do termo está associado à indiferença da alegria ou do desgosto. Mas seria também algo relacionado ao sentimento de impunidade ou de estar acima dos valores que orientam uma sociedade?

 

É o que precisamos entender com relação aos sujeitos que batem em suas mulheres e depois pedem o voto do eleitorado.  Vivemos numa sociedade machista ao extremo em que estatísticas de violência contra a mulher ainda registram crescimento. Essa mesma sociedade cria leis específicas, aprimora mecanismos de punição, debate o assunto largamente, faz campanhas e ainda assim, em alguns segmentos, aumenta a violência contra a mulher. Sobretudo sobre a companheira, a esposa, a cônjuge. A questão aqui é tentar entender algo paradoxal: a mesma parcela de brasileiros que domesticamente ainda bate na mulher seria capaz de punir nas urnas aquele que bate ou bateu na própria companheira? Não existe pesquisa de opinião pública alguma capaz de fazer esse cruzamento. A variável “bater na mulher” não vai ser assumida para um pesquisador. Essa é uma aberração que muitas vezes o agressor guarda pra si, alguns vizinhos e familiares sabem e por vezes se calam, e as mulheres agredidas também, por vezes, esperam anos para se encorajarem em denúncias complexas. O assunto é delicado demais. E assim fica a nova pergunta: a sociedade brasileira pune aqueles que, sabidamente, agrediram mulheres nas urnas? Isso as pesquisas mostram, aparentemente, e em partes, que sim. Ou seja: com base na informação, ou no boato disseminado, parcela do eleitorado tende a colocar esse item na pauta de análise.

 

Foi assim, por exemplo, com o cantor de pagode Netinho de Paula em São Paulo. Toda vez que disputa um cargo majoritário, e ele já tentou ser senador e foi pré-candidato a prefeito da capital paulista, o assunto volta. A socos a vítima foi sua mulher, em 2005. As urnas punem, apesar de o artista ser muito bem votado. Para senador foram quase oito milhões de votos em 2010 que tiraram o sono da eleita Marta Suplicy – defensora ferrenha dos direitos das mulheres e de acordo com boatos vítima de agressões num passado recente. Em 2014 foi a vez de o senador Aécio Neves experimentar a força de uma informação associada a uma agressão de 2009 à namorada da época. Um empurrão e um tapa em festa realizada em hotel de luxo no Rio de Janeiro. É o que se noticiou. Ainda assim teve milhões de voto e quase foi eleito presidente, e a cena foi explorada por adversários. É assim que acontece: os fatos ou boatos são utilizados e buscam minar. A questão é saber a força que têm. Também em 2014 foi a vez de um prefeito responder por espancar a ex-mulher. O blog do Luis Pablo mostra o mandatário de Cururupu, Junior Franco (PMDB), como alvo em ação. De imediato ele ficou proibido de chegar perto da “ex-família” e de ver o filho. Eleitoralmente as consequências estão por vir, e no ano que vem veremos o quanto o eleitor pune esse tipo de aberração na cidade maranhense.

 

E se depender do prefeito Eduardo Paes, no Rio de Janeiro essa bizarrice também será testada nas urnas. O poderoso secretário Pedro Paulo veio a público como pré-candidato a prefeito da capital, sustentado pelo chefe, para se desculpar de uma agressão a sua ex-mulher. A ocorrência tomou os jornais de forma avassaladora. E logo em seguida, dias depois, ele voltou a público para dizer que não bateu apenas uma vez. Em 2008, por exemplo, a época de Natal foi o instante mágico para socos no rosto. Há quem diga no seu batalhão de apoiadores que fatos da vida privada não devem contaminar sua capacidade no universo público. Eu mudaria um pouco a afirmação, discordando frontalmente dela: sujeitos descontrolados no universo privado – termo que o próprio secretário utilizou para resumir o que pensa de quem espanca alguém em 2010 – não têm contribuição alguma para ofertar à sociedade no universo público. Perceba: a declaração sobre desequilíbrio, de acordo com a revista Veja, foi em 2010, e as agressões em 2008. Falemos então em equilíbrio, em impassividade, algo ao estilo “bateu na mulher e foi às urnas”. Para o secretário, no entanto: “qual o casal nunca teve uma briga”? TODOS tiveram. Mas no braço? Na força física? E olha que a ex-esposa, o atual companheiro dela, o agressor e a atual mulher dele vieram a público juntos num teatro político assombroso. E lá a agredida afirmou: “ele nunca foi agressivo”. “Sorte” da atual companheira.

 

 

Ps. Esse texto foi escrito por alguém que não acredita, sequer, na utilidade da agressão física entre pessoas do mesmo gênero. Excesso de força física é ausência de capacidade intelectual. Quem usa o braço para solucionar uma desavença prova que não conhece a força que um bom cérebro tem.