O que encontramos no banheiro

Humberto Dantas

07 de dezembro de 2015 | 16h14

Participação especial e essencial do jornalista e cientista político Wilian Miron

 

É consensual no meio político que a democracia dá trabalho e é custosa. Mas esse custo é absolutamente essencial. Em uma relação esdrúxula, a eleição é cara e está para a nossa democracia, assim como o plano de saúde é caro e está para as demandas da classe média em geral. Ou seja: tem que ter. E por pior que seja, o pior é ficar sem. O problema, no entanto, é que a democracia, assim como os planos de saúde, andam em crise. No segundo caso o que não faltam são denúncias, escândalos e processos. No primeiro, sobra desencantamento com a política e com os representantes por parte dos cidadãos. A saída, vão dizer alguns, está associada à seguinte ideia: mais participação. Canais adicionais de construção conjunta da realidade que transcendam o voto. Isso é a teoria quem diz, faz quase trinta anos.

 

Na prática temos visto tentativas de consolidação do que se convencionou chamar de democracia participativa. Dentre as ferramentas criadas estão os conselhos gestores de políticas públicas, e dentre eles estariam os conselhos tutelares – há controvérsias, mas vamos adiante. Trata-se de um órgão que zela pelos direitos das crianças e adolescentes, com funções claras e fundamentais. Seus membros, inclusive, são remunerados e têm como função tomar medidas de proteção em relação a esse público. E como vivemos reclamando das eleições, mesmo no instrumento participativo temos motivos de sobra pra continuarmos descontentes.

 

Na cidade de São Paulo, a eleição para a escolha dos 260 conselheiros tutelares que atuariam a partir de 2016 micou. Isso mesmo: deu zebra! O pleito, que ocorreu no simbólico domingo em que comemoramos a proclamação da República, dia 15 de novembro último, está sob suspeição. Alguns candidatos alegam ter encontrado urnas no banheiro. Isso mesmo: parece que jogaram a democracia no lixo. Os equipamentos eletrônicos tiveram problemas, e urnas manuais foram necessárias. Aqui fica a dúvida: seria um teste para a declaração da justiça de que em 2016 votaremos manualmente por falta de dinheiro? Isso é outra história. O fato é que o prefeito da capital se reuniu para debelar a crise eleitoral –nos conselhos tutelares – e o objetivo é realizar novo pleito em fevereiro. Até lá vamos notando a incapacidade de levarmos adiante elementos essenciais de nossa democracia. Resta compreender se onde encontraram as urnas descartadas também acharam restos do que muitos pensam ser a nossa democracia.

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