As políticas também dão a luz e amamentam

Humberto Dantas

20 de julho de 2015 | 07h36

Em 1995 o presidente da República Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi para a China participar de evento da ONU onde se discutiu a participação da mulher na política. Na comitiva brasileira viajou a então deputada federal por São Paulo, a ex-petista Marta Suplicy, uma histórica defensora das causas femininas. Nessas duas sentenças fica claro um desafio dos mais expressivos: o estímulo à participação da mulher na política deve transcender a lógica partidária, sendo capaz de vencer aspectos que por vezes polarizam de forma exagerada a cena política brasileira.

 

A partir da viagem as leis começaram a contribuir para uma maior presença feminina na política brasileira. E a melhor forma de notarmos isso está relacionada à composição dos parlamentos. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, patinamos em índices deprimentes: cerca de 10% dos deputados são mulheres, mesmo que tenhamos avançado nos últimos 20 anos no que diz respeito às candidaturas. Isso porque o Tribunal Superior Eleitoral, e suas questionáveis interpretações em forma de legislação, ajudaram. Nas eleições mais recentes o partido que não garante efetivamente um mínimo de um terço das vagas em chapas proporcionais a pessoas de gênero minoritário passa a ter que retirar candidatos do gênero majoritário da chapa – normalmente o masculino. O país assim evoluiu no debate sobre a participação da mulher na política por meio de leis e interpretações legais, e elas passaram a se candidatar com maior ênfase. Mas e a vitória? A conquista das vagas são outros 500. Muitas são utilizadas como “laranjas” e já narramos essa passagem aqui no blog. Ademais, estudos mostram que o gênero feminino tem mais dificuldade para arrecadar para as campanhas. Paciência. Um dia quem sabe chegamos a algo mais equilibrado? Um dia vemos o princípio da lei se efetivando na prática?

 

Nos partidos o PT tem tentado mesclar gêneros, e nos seus órgãos diretivos metade das cadeiras já são femininas. O partido chegou a lançar tal desafio às outras legendas na TV, em seu programa. O PSDB, em percentual menor, repetiu o feito. Infelizmente, no entanto, no cotidiano ainda assistimos verdadeiras aberrações. Em 1998, por exemplo, a tucana Ceci Cunha foi assassinada após ser diplomada deputada federal por Alagoas. A motivação ficou óbvia para a polícia: o primeiro suplente queria a vaga, o que não necessariamente denota machismo, mas uma sociedade violenta demais. Por sinal, vale a leitura do texto de meu parceiro de Grupo Estado, José Roberto de Toledo, sobre um milhão de assassinatos no Brasil desde 1996. A condenação dos assassinos de Cunha demorou anos, mas levou o mandante a mais de 100 anos de pena. A “justiça divina”, no entanto, foi mais rápida: morreu de infarto semanas depois.

 

Mas nem só de desgraças desse tipo vive a mulher que ingressa na carreira política. Na Câmara Municipal de São Paulo faz alguns anos a vereadora Juliana Cardoso, do PT, ficou grávida. Em seus planos, provavelmente, queria dar a luz e passar alguns meses em casa, direito que toda a profissional tem. Teve que se contentar com o recesso parlamentar mesclado à quarentena. O problema é que como cidadãos, por vezes, ficamos indignados com regalias e salários de políticos, mas nos escapam certas situações que merecem reflexão e os alijam do que parece razoável. A mesma Câmara que recentemente aprovou a contratação de quase 700 assessores em pleno ano pré-eleitoral, mostra que se ela queria “ser mãe” deveria se afastar do cargo. A despeito dos vencimentos, o fato é que em seu lugar assumiria um suplente que certamente desfaria sua equipe de 18 pessoas –acho que o questionamento, para qualquer vereador, está aqui! Mas e depois do retorno da parlamentar? Demite-se o grupo que entrou no lugar e manda-se o suplente para casa com toda a sua galera. Assim, diante dos fatos Juliana se manteve no mandato, e teve que enfrentar a cara feia de alguns colegas que reclamavam quando ela amamentava no plenário – impossibilitada de sair por conta de uma discussão ou pauta relevante para a cidade. “Vai ali na salinha amamentar!”, sugeriam alguns. “Nada disso”, respondia a vereadora. E agora? Perceba o que quero dizer: se o intuito é promover o ingresso da mulher na política devemos considerar aspectos múltiplos que transcendem a reserva de vagas para candidatas, o espaço nos partidos e coisas do tipo, por mais relevante e necessário que tudo isso seja. Notemos que o mundo da política é tão machista que sequer Juliana teve resposta razoável para algo bem normal de acontecer: uma mulher, vereadora, deu a luz! E precisa amamentar.

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