ABCD da religião

Eder Brito

13 de novembro de 2013 | 12h29

Por Eder Brito

No último dia 8 de novembro, os moradores da cidade de Diadema, no Grande ABC Paulista ganharam um novo espaço para a prática de atividades físicas. O Prefeito Lauro Michels inaugurou uma academia ao ar livre, obra no bairro do Campanário. Aproveitou a oportunidade para agradecer a Deus.  Teria citado que Deus abençoou Diadema e o vínculo das bençãos com a primeira edição municipal da famosa Marcha Para Jesus, evento que acontece anualmente em mais de 170 países.

A Marcha reuniu milhares de simpatizantes de igrejas evangélicas de Diadema, no mês de setembro com trios elétricos e ocupação de vias públicas, fato que “pegou bem” entre o eleitorado evangélico do Prefeito. Em uma cidade onde cresce exponencialmente o número de templos destes segmento, parece natural que o chefe do executivo diademense continue buscando os dividendos políticos em aparições públicas. Por meio de sua assessoria de imprensa, no entanto, o Prefeito nega que tenha citado a Marcha para Jesus durante o evento de inauguração. Declara-se ainda “sem religião, mesmo tendo sido criado como católico romano” e afirma que “a religião não deve influenciar na administração”.

Um mês depois da Marcha para Jesus, a Comunidade Católica São Judas Tadeu decidiu, no mesmo bairro do Campanário, celebrar o Dia de seu padroeiro. Teria sido impedida de circular com carros de som pela cidade durante a procissão. A Prefeitura diz que nunca houve um pedido formal da Igreja católica.

Outro interessante fato “religioso” aconteceu na mesma semana, na vizinha Santo André, também na região do ABC Paulista. Eleito vereador pelo PRB, Ronaldo de Castro construiu seu capital político como bispo da Igreja Universal do Reino de Deus. Surpreendeu os eleitores e a opinião pública ao anunciar que em 2014 destinará 200 mil reais em emendas parlamentares a uma escola de samba no bairro de Vila Luzita. O valor impressiona, pois representa mais de 60% dos 300 mil reais possíveis de serem repassados como emenda ao orçamento municipal pelo parlamentar. Eleitores evangélicos utilizaram as redes sociais para criticar o vereador, apontando a contradição entre sua história na Igreja Universal e o apoio às práticas “desprovidas de valores cristãos” da escola de samba.

“As pessoas esquecem que as escolas de samba também desenvolvem trabalho social e atendem a comunidade”, afirma Castro. “Não se pode confundir o parlamentar com o homem religioso. Tive essa conversa com o Russomano no ano passado”, lembra, citando o companheiro de PRB que sofreu durante a campanha à Prefeitura paulistana em 2012, acusado de estar agindo sob influência da Igreja Universal. Além da polêmica emenda (e nenhum centavo para Igrejas, já que o restante dos 300 mil vai para outros tipos de entidades), o vereador também eliminou o “Bispo” de seu nome famoso e atende no Gabinete apenas como Vereador Ronaldo de Castro.

Tudo isso no ano em que a Constituição Federal celebra 25 anos de idade, democracia e Estado Laico, ecoando duas ideias essenciais em seu quinto artigo: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença” e “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa”.

Quem crê, por gentileza, diga amém!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.