A tradição dos hospitais-fantasmas no Rio Grande do Sul

Camila Tuchlinski

24 de julho de 2015 | 08h32

Em 1986, o Rio Grande do Sul iniciou as obras do Hospital Público de Barra do Ribeiro, cidade que fica a 60 km de Porto Alegre. Quatro anos depois, o local seria inaugurado. No entanto, até 2015, os corredores permaneciam vazios. Trata-se de um hospital-fantasma há 15 anos! O prédio tem três mil metros quadrados, capacidade para 64 leitos, com atendimento pelo SUS. A instituição teria condições de atender toda a população de 19 cidades vizinhas.

Durante todo esse tempo, prefeitura, Estado e a União, além dos moradores, contribuíram para que o hospital funcionasse. Mas burocracias inexplicáveis travaram o processo. Enquanto a prefeitura da cidade gasta com transporte de pacientes para Porto Alegre, desfribiladores, eletrocardiógrafo, máquinas de ultrassom, macas e carros de anestesia seguem encaixotados desde 1999.

O atual prefeito de Barra do Ribeiro, Luciano Boneberg, desabafa que está de mãos atadas. Ele decidiu manter o pronto-socorro funcionando na entrada do prédio. Boneberg contabiliza que precisaria de R$ 2 milhões por mês para manter o hospital em pleno vapor. Porém, a arrecadação de todo o município não chega a esse valor.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, há um déficit de 469 leitos na região. Com o Hospital de Barra do Ribeiro, 2800 pessoas poderiam ser atendidas por mês e 350 internações.

Em Guaíba, município que fica a 30 km da capital gaúcha, um novo hospital público foi concluído há seis meses. Porém, segue fechado! O bloco de internação e de cirurgia está vazio. A ala da maternidade está concluída há dois anos, mas os aparelhos novos já estão empoeirados, a espera dos bebês que deveriam nascer ali. Será que teremos mais um hospital-fantasma no Rio Grande do Sul?

O secretário municipal de Saúde afirma que se sente de mãos atadas e que, sempre que atende uma exigência, como a criação de um número determinado de leitos, a Secretaria de Estado da Saúde acrescenta novas. Desde 2009, quando a Justiça determinou o fechamento da única maternidade de Guaíba, no Hospital Nossa Senhora do Livramento, a cidade não tem o serviço. Em 2014, mais de 1600 mulheres tiveram de viajar para Porto Alegre para dar a luz.

Contando com todas as outras exigências da Vigilância Sanitária e outras burocracias futuras, o governo de Guaíba tem a esperança de conseguir colocar o hospital em funcionamento até novembro deste ano. Agoniza, burocracia!

 

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