A síndrome de Serrinha dos Pintos

Eder Brito

09 Dezembro 2013 | 08h10

Por Eder Brito

A história de Serrinha dos Pintos, município do Rio Grande do Norte não é das mais felizes. A cidade ficou mundialmente conhecida por conta da Síndrome de Spoan. Esta doença neurodegenerativa faz com que as pessoas sofram uma paralisia progressiva e é causada principalmente por conta de casamentos consanguíneos (entre familiares). Por volta dos sete anos de idade, os filhos gerados da união entre primos começam a perder o movimento das pernas. Na adolescência são os braços que ficam paralisados. Dos 73 casos descobertos por pesquisadores do Hospital das Clínicas (HC), 72 vieram da cidade. O caso foi até parar em revistas especializadas no ano de 2005. Ainda não existem tratamentos ideais para a doença, mas pela amostragem a causa parece ser mesmo o casamento entre familiares.

O tipo de matrimônio é tradicional no município de 4.300 habitantes, 370 quilômetros distantes de Natal. Até na hora das eleições dá pra perceber os sobrenomes repetidos. Dos 23 candidatos a vereador, 5 eram da família Queiroz, mesmo sobrenome de Ledimar (PSC-RN), candidato derrotado na tentativa de tornar-se prefeito do local. Três deles entraram e estão na Câmara Municipal. Quem levou o cargo de Prefeita foi Rosânia Maria Teixeira. Encabeçando a coligação “Serrinha dos Pintos seguindo em frente”, ela deixou Ledimar pra trás por uma diferença de 301 votos: 1921 eleitores preferiram a Prefeita contra 1620 que votaram no candidato do PSC.

Mais de um ano depois do pleito municipal e oito anos depois do apontamento da estranha síndrome, outra “patologia” parece estar tentando colocar os holofotes sobre o município. No último dia 06 de dezembro, Rosânia e Chicão, seu vice-prefeito tiveram seus respectivos mandatos cassados pela Justiça Eleitoral por compra de votos e abuso de poder econômico durante a campanha de 2012. Tá lá publicado no Diário da Justiça da última sexta. Segundo o que consta no processo, Rosânia e Chicão pagaram passagens de ônibus e avião para eleitores que estavam em outros Estados e cidades. Fazendo isso, teriam conseguido uns votos a mais, deixando Ledimar e seus 1620 votos com o “vice-campeonato” eleitoral.

Ainda segundo o processo, os dois gastaram pelo menos R$ 16 mil na compra de passagens para eleitores no período de campanha. Rosânia e o vice vão pagar 20 mil reais de multa e ficarão inelegíveis por oito anos. O mesmo juiz que sentenciou isto, determinou que os dois continuem em seus mandatos até que o processo “transite em julgado”. Isto significa que ambos continuam no governo municipal enquanto a decisão não for referendada no Tribunal Regional Eleitoral e no Tribunal Superior Eleitoral em Brasília. A intenção é “evitar instabilidade econômica e administrativa no município de Serrinha dos Pintos”.

Mas Serrinha dos Pintos já está instável e a culpa é da seca. Tamanho é o sofrimento com a falta de água que a Prefeitura viu-se obrigada a cancelar os gastos públicos com a comemoração dos 20 anos de emancipação política de Serrinha dos Pintos, data que seria celebrada no último 30 de Outubro. Em decisão conjunta a Prefeitura, o Governo Estadual, Ministério Público Federal e Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte concluíram o óbvio: seria impossível gastar dinheiro com uma festa. O valor seria o bastante para “23 cisternas de 52 mil litros e incentivos para compras de animais”, dizia a decisão conjunta.

Inevitável constatar e opinar: é triste a situação do município potiguar. E as descobertas e problemas recentes preocupam mais do que tudo o que foi apontado pelos pesquisadores do HC em 2005. A pesquisa em busca do tratamento para a síndrome de Spoan segue. E a cura para os problemas político-partidários e de gestão? Existe?