A ponte para o futuro está em Mairinque

Humberto Dantas

16 de maio de 2016 | 11h07

Em co-autoria com Samuel Oliveira – pós-graduado em Ciência Política na FESP-SP

 

Alguns políticos desejam entrar para a história como autores de frases eloquentes e arrebatadoras que registrarão sua imagem na memória popular. Com o presidente interino, Michel Temer, não poderia ser diferente. Em seu discurso de posse apresentou uma frase de efeito. Não se trata de nada autoral, mas aqui estrategicamente, talvez, queira mostrar que é do povo, da estrada, do mundo dos comuns. E citou uma placa rústica pendurada em um posto de combustível na Rodovia Castelo Branco, km 68,5.

A famosa “não fale em crise… Trabalhe!!!” está registrada em Mairinque, cidade que já figurou outras duas vezes aqui no blog. O que faltou explicar é que o posto de gasolina já não está lá, existindo apenas uma loja de móveis rústicos, uma borracharia e uma pequena mercearia. Será que a crise matou o estabelecimento?

Não, o problema é bem mais grave que isso. Dois anos atrás, o dono do posto, João Mauro de Toledo Piza, o Joca, foi condenado por tentativa de homicídio. O fato ocorreu em 2012, mas a lista de “labuta” vai além disso. Em 2010 “o trabalhador” foi indiciado por formação de quadrilha, receptação e sonegação fiscal. Ademais, responde ação civil pública por danos aos cofres públicos, estelionato e outras “pendências” na área fiscal, como apurou o jornal Extra. Pra completar, dezenas de processos ambientais e fiscalizações dos órgãos, como a CETESB, fizeram com que o posto Doninha tivesse suas bombas lacradas.

O Blog do Dantas virou um canal policial? Longe disso! O que falta contar nessa história, tirando o famoso jeitinho brasileiro de se dar bem e afastar a obrigação de cumprir as regras fiscais, ambientais e governamentais, é que o Posto Doninha já foi um grande ponto de parada para viajantes, muito aquém do cenário desértico atual.

Segundo o Estadão, depois de 40 anos de existência o posto foi perdendo clientela graças ao Programa de Concessões Rodoviárias do Governo de São Paulo, na década de 90. Com isso, além do Doninha, muitos outros postos tiveram seus acessos interditados pelo Departamento de Estradas de Rodagem-DER. Hoje, aliás, é difícil encontrar um posto que não seja controlado, coincidentemente, por um famoso Grupo que manda nas estradas. Segundo alguns moradores, a churrascaria do Doninha era tão famosa que pessoas de outras cidades a frequentavam apenas para almoçar. A despeito da ficha corrida do ex-proprietário fica a pergunta: só trabalhar, num país em que o Estado se mostra tão questionável é a única solução? A crise é mesmo debelada se olharmos pra cenoura na frente do burro e marcharmos? Boas perguntas. A resposta vem em tom provocativo.

Curiosamente, do outro lado da estrada, existe uma empresa chamada Fersol. Foi lá que as ações de educação política das quais participamos até hoje começaram. Ali, no início dos 2000, demos cursos de política para centenas de funcionários e moradores dos arredores. Um deles virou caso do Jornal Nacional faz anos. A reportagem mostrava a importância de um cidadão politicamente informado, um eletricistas da empresa, ir à Câmara Municipal atrás de conhecer o trabalho de seus representantes. A partir de iniciativas como estas, afirma um texto acadêmico da empresa publicado numa revista da Fundação Konrad Adenauer em 2010, diversas conquistas em termos de direitos sociais foram obtidas junto ao poder público. A politização gerou um ativismo expressivo.

A Fersol é separada do Doninha por uma única ponte. E aqui encontramos o que existe de mais interessante nessa história toda: se entre o culto ao trabalho da placa de Temer e a politização da Fersol, necessária à consolidação da democracia no país, também tivermos uma ponte, esta será, efetivamente, uma ponte para o futuro. Será? Precisaremos entender o que o Brasil, e Temer, entendem por crise, por trabalho e por democracia.