A pata e a galinha

Humberto Dantas

10 de fevereiro de 2014 | 08h01

Político adora contar a história da pata e da galinha. Adora! Contam que quando a galinha põe o ovo sai cacarejando, anunciando, gritando. Literalmente fazendo propaganda de sua obra. Já a pata é tonta – por sinal, não é a primeira vez que falamos em patos nesse blog (quaquá!). De acordo com a história dos políticos, nossa segunda ave é mais discreta, não faz barulho quando bota. Mas o que os políticos têm a ver com tudo isso? O comparativo é utilizado para separar os agentes públicos que fazem propaganda e festa para mostrarem qualquer coisa que fazem daqueles que governam em silêncio. O político galinha leva vantagem nas urnas, o mandatário pata vive com a boca amarrada, sem dizer nada, sem propagandear seus atos.

 

Pois bem. Nos últimos anos aprendemos a conviver com grandes galináceos no poder. Verdadeiras penosas disseminadoras de seus atos. As verbas de propaganda crescem assustadoramente no país, sufocam a oposição, desequilibram jogos. É assim que funciona, e quase todos fazem. Pata não tem vez na política. Assim, até mesmo quando parece estar fazendo o óbvio, o político gosta de aparecer. Em Pinhão, sul do Paraná, o prefeito percebeu que a cidade precisava de uma ambulância nova. A então atual, e aparentemente única, estava carcomida por 16 anos de uso intenso. A porta sequer fechava direito. Um verdadeiro afronta aos direitos de seus mais de 30 mil habitantes de acordo com reportagem do portal G1.

 

Foi quando alguém, talvez o próprio prefeito, teve a brilhante ideia de comprar uma nova. Mas com que dinheiro, se as prefeituras vivem à mercê da sorte, à míngua? Bastava vender o carro que atendia o mandatário maior. E não se tratava de um veículo qualquer. Falamos de um imponente Toyota, daqueles grandes, tipo 4×4 luxuoso que embala o orgulho do condutor e dos passageiros. Uma beleza que valia, usada, cerca de R$ 180 mil. A compra fora feita pelo ex-prefeito. O negócio foi concluído e rendeu a nova ambulância em meados de 2013. Uma manobra digna dos mais republicanos interesses. A partir de então o prefeito responsável pelo negócio passou a se locomover com um carro cedido pela Câmara, uma vez que o seu Vectra 1995 declarado à justiça eleitoral deve estar em condições semelhantes à antiga ambulância.

 

Ao gesto aparentemente nobre, e minimamente razoável, faltava apenas o óbvio. Dirceu de Oliveira, do PSD, ex-vereador eleito prefeito pela coligação “Avança Pinhão” precisava cacarejar. E claro que cacarejou, ou ao menos deixou que cacarejassem por ele. O carrão vendido foi estacionado com um adesivo no para-brisa atestando a passagem para outro dono ao lado da nova ambulância Renault, um imponente furgão, com o descritivo “adquirido” no vidro frontal. Um ao lado do outro, num terreno, com uma faixa estendida e os dizeres: “prefeito troca carro de luxo por ambulância”. Afinal de contas, quem não cacareja o ovo botado é mesmo uma grande pata! Será? Quem pagou a faixa?

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