A maldição das girafas eleitorais

Humberto Dantas

04 de novembro de 2013 | 09h00

As redes sociais têm como uma de suas características marcantes algumas modas tão passageiras quanto a velocidade da conexão. Claro que não estou falando do 3G brasileiro, mas de algo como a expedita transmissão da Coreia do Sul, por exemplo. Em uma dessas brincadeiras surgiu a figura da girafa. Girafa? Isso mesmo, a brincadeira em que o sujeito que não acerta uma charada tem, ou tinha, que trocar a foto do Facebook pela imagem de uma simpática girafídea – se preferir chama-la de camelo leopardo, como faziam os romenos antigamente, fique à vontade.

 

Pois não é que o simplório jogo caiu em desgraça em certas igrejas porque um pastor resolveu dizer que a brincadeira era imprópria? Misturou o mamífero pescoçudo com o demônio, destilou um bizarro preconceito contra os homossexuais e afirmou, do alto de seus conhecimentos zootécnicos, que o simpático ser ungulado de casco par é um símbolo da condenável sensualidade. E que um em cada dez animais desse tipo mantém relações sexuais com agentes do mesmo gênero. Pois é… quanta sabedoria!

 

Seria esse conhecimento “animal” capaz de explicar o baixo volume de votos recebido por dois personagens pouco conhecidos da cena política brasileira em 2012? Em Sumaré, interior de São Paulo, Marcos Carlos de Moraes, frentista filiado ao PT do B buscou vaga no legislativo local. Não foi além de 40 votos. Com qual apelido nas urnas? Marcos Girafa. Pronto! Se consultarmos o pastor certamente chegaremos a um resultado tenebroso: uma maldição! Isso porque folcloricamente os russos acreditam que os mortos vagueiam pela terra 40 dias após a morte para resolverem pendências. O número é amaldiçoado na terra dos czares, e uma girafa só poderia ter uma quantia de votos como essa.

 

Já em Belo Horizonte o caso parece expressivamente “mais grave”. O despachante Claudiney Lopes, natural de Contagem, buscou uma vaga na Câmara Municipal pelo PTN – a legenda que reedita a vassourinha de Jânio Quadros em sua logomarca. Seu apelido nas urnas? Ney Girafa! Uma rápida olhada na foto disponível no sistema do Tribunal Superior Eleitoral e é óbvio que o apelido está associado ao pescoço longo do rapaz – apenas uma característica. Mas que todas essas informações organizadas não cheguem aos ouvidos do sábio pastor. Ele certamente ligará a devassa girafa à ameaçadora vassoura, um dos símbolos maiores da bruxaria. Assim, Ney correria riscos semelhantes àqueles vividos na inquisição? Provável. E nesse caso o resultado só poderia ser um: Girafa ficou com menos de 1.500 votos. Maldição? Só pode ser. E que fique claro: o pastor tentou advertir a todos sobre o perigo da brincadeira da girafa por meio de seu telefone celular. Mas no momento do post seu iphone travou, de acordo com o blog de Carolina Giovanelli. Teriam também as urnas eletrônicas dos eleitores dos Girafas travado no instante da escolha? Não sei, mas posso garantir que meu computador trabalhou bem até o fim desse post.

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