A mais ou a menos?

Humberto Dantas

18 de novembro de 2013 | 08h00

Ao contrário do que costumamos publicar aqui essa história não tem personagens nomináveis e sequer um endereço específico no mapa. Talvez se aloque no rol do que convencionamos chamar de “lendas urbanas”. Como aquela do namorado que vai à casa da amada pela primeira vez, se depara com uma família extremamente formal e, ao usar o lavabo que não tinha papel higiênico quebra a pia ao tentar se equilibrar sobre ela para… Bom, melhor pararmos por aqui. Mas isso é uma lenda urbana. Na escola me contaram essa história diversas vezes, sem nunca darem nomes aos bois. Era sempre: “o amigo de um amigo meu”. Sei…

 

Pois bem, a lenda que contamos aqui se adequa a esse tipo de situação. Se for verdadeira estará facilmente inscrita no manual de curiosidades da política brasileira. Em meio a uma eleição no interior catarinense – e se você conhece essa história trate de confirmar o nome da cidade – um dos candidatos descobriu que seu adversário tinha uma família paralela em município distante. Isso mesmo: esposa, filhos, casa… Tudo montado nos mesmos moldes da cidade em que disputava a eleição: vida dupla. À noite, no caminhão de som do comício, a bomba: “se ele tem uma família paralela, se ele desrespeita a família que possui na nossa cidade, se ele não honra sequer quem tem sob sua responsabilidade dentro de casa, se ele trai a esposa e os filhos, imagina o que vai fazer conosco se ganhar a eleição?” A resposta óbvia era: trair.

 

Eleição em cidade pequena tem ritmo próprio. Desmotivado, o traidor resolveu visitar um médico urologista em local distante. Ao se identificar deu de cara com um doutor linguarudo. “Ahhhh você é dessa cidade? Trato de gente de lá”. Quase deprimido, mas sempre muito educado, o paciente resolveu perguntar: “quem?”. A resposta não podia lhe aguçar mais a curiosidade: “fulano! Conhece?”. Era o adversário. Sem ofertar sinais de grande interesse, mas elucubrando um plano mirabolante, a pergunta soou despretensiosa: “o que ele faz aqui doutor?”. E a resposta: “você sabe, a idade. Ele já é um senhor. Tenta atenuar a impotência, mas nem remédio tem ajudado”.

 

À noite na praça o quase derrotado traidor sobe ao seu caminhão de som. Raras vaias, poucas pessoas, e a frase devastadora: “descobri que meu adversário, que me acusa de absurdos em minha vida pessoal, na verdade tem estado em falta com seus deveres conjugais”. E completou: “se ele não é capaz sequer de dar conta de sua esposa na intimidade de seu aconchego, você acha mesmo que esse homem cansado vai dar conta de você e de todos os problemas da nossa cidade?”. A lenda conta o óbvio em um país “viril” e machista: o traidor foi eleito prefeito, o cansado continuou o tratamento.

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