A grama do vizinho

Patricia Tavares

19 de abril de 2017 | 17h42

Adoramos comparar nossa grama com a do vizinho. Em nosso trabalho. Em nossas cidades. Listas, rankings, o título de melhor lugar para se viver, melhor cidade para se empreender, a cidade mais bonita, essas coisas nos atraem e nos fazem sentir bem – ou mal – com nosso local de origem. E também podem nos iludir.
Apesar dos rankings e listas de revistas de grande circulação, fica uma pergunta: você sabe dizer se sua cidade está se preparando para melhorar a qualidade de vida de seus munícipes? Ou se está trabalhando para manter uma boa atividade econômica? Não falo aqui dos discursos de campanha. Falo da nossa capacidade como cidadão de dizer se a grama está verde e vai continuar assim ou vai piorar nos próximos anos nesta cidade. O que olhar? Que dados buscar? Como analisar? O que poderia ser feito de diferente na cidade? Complexo? Pode apostar que sim.
Felizmente, com a Datapedia podemos começar a tentar entender como avaliar sua cidade e identificar os desafios presentes para o futuro que se quer. Quer um gramado bonito? Temos que ver se as bases para ele existir estão presentes!
Um indicador dessa “base” para o futuro, que começamos a explorar aqui em 3 passos, é o IDH. A ideia é que você busque sua cidade na plataforma e faça você mesmo sua primeira avaliação parcial como cidadão. Claro que tem muito mais coisa para analisar, e você deve estar feliz (triste) com a atual situação de sua cidade. Mas é só para tira teima baseada em dados. Vamos lá?
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado por Amartya Sen e Mahbub ul Haq em 1990, visa medir a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico de uma localidade. Ele é uma “vitamina de frutas” com 3 ingredientes que misturados (somados), podem indicar como está a base desse futuro que desejamos. Ele é composto pela expectativa de vida ao nascer (uma referência de Saúde), pela média de anos de estudos de adultos e os anos esperados de escolaridade de uma criança (referências de Educação), e pela renda das pessoas (para se ter um padrão de vida decente). Enfim. A lógica, bem simplificadamente, seria mais ou menos assim: se existem boas condições de saúde básica, de atendimento a gestantes, de cuidados com primeira infância e na vida adulta teremos uma expectativa de vida longa que, somados aos anos de escolaridade do cidadão podem levá-lo a ter uma maior condição de gerar renda para uma vida decente. Então, não adianta muito olharmos apenas para o ranking de IDH se não olharmos para as outras “frutas” dessa composição.
Vamos pegar o caso de Santana de Parnaíba, em São Paulo. Cidade que possui o glamoroso bairro de Alphaville. Ao olhar para seu IDH, temos uma excelente média de 0,814, considerado muito alto para a ONU, no mesmo nível da europeia Croácia.
Nos rankings ela é a 16ª melhor cidade do Brasil e a 9ª melhor do Estado de São Paulo.
Muito bom, mas será que este desenvolvimento chega para todos? E as outras frutas?
Na educação, a proporção de jovens de 15 a 17 anos frequentando o ensino médio em 2010 era de 42 em cada 100. Ou seja, 58% dos jovens já tinham ficado para trás nas escolas de Santana do Parnaíba. 58%!
A renda média em 2010 era alta, com R$ 1.858,69 de renda per capita, bem acima de Brasil (R$ 793,87) e Estado de São Paulo (R$ 1.084,46).
Mas sua distribuição era péssima. 66% da população tinha uma renda inferior a R$ 1.020,00 per capita. E o índice de Gini, que mede a desigualdade de renda, é astronômico: 0,67, pior do que Zâmbia e Haiti. Zâmbia e Haiti!
Por isso, desconfie de listas e análises simplistas.
Nem em Alphaville a grama do vizinho é tão verde assim. *Em parceria com Marcos Silveira

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.