A “função social” do vereador

Humberto Dantas

13 de julho de 2015 | 08h04

Não são poucos os cursos em que digo que não são apenas os políticos que olham para os cidadãos com interesses que enviesam a lógica da democracia em seu sentido mais puro. O contrário, obviamente, também ocorre. Assim, uma pesquisa da Associação dos Magistrados Brasileiros de 2008 mostrava que parcelas expressivas dos entrevistados esperavam favores dos parlamentares – dinheiro, pagamento de contas, ajuda com despesas médicas, colocação no mercado de trabalho etc. Triste realidade de quem não sabe pensar amplo. O vereador, nesses casos, vira um despachante de benesses pontuais. A cultura política brasileira tem aí um de seus sinais mais preocupantes.

 

Certa ocasião, numa cidade do interior paulista que sinceramente não me recordo o nome, um vereador que assistia a minha palestra me fez ouvir um caso que completava o slide em que eu mostrava a pesquisa da AMB. O relato foi deprimente, mas serviu para ilustrar minha aula. Foi extremamente pertinente para o instante. Ele contou que na cidade dele os estudantes do ensino médio da única escola pública desse tipo no local promoviam o “leilão do paraninfo”. Isso mesmo: às vésperas da festa de formatura – e que esse texto não sirva de exemplo para imbecilidades desse tipo – a garotada procurava os vereadores vendo quem poderia dar a maior doação para o evento em troca da “homenagem”. Já pensou o que é para um político de uma pequena cidade ser paraninfo de uma turma de ensino médio? Discursar para jovens eleitores e seus familiares durante cerca de uma hora em ambiente festivo é o sonho de qualquer um.

 

Pois em Manduri, interior de São Paulo, a despeito da existência de leilões – o que até onde sabemos não há – vereadores perceberam que a presença nas formaturas da escola é estratégia essencial. De acordo com relatos de cidadãos locais, tem representante que não perde um evento desse tipo. E nesses casos a chance de dizer algumas palavras sempre aparece. Assim, a estratégia está montada: homenagear os jovens é o caminho para se mostrar ativo, vivo, presente e próximo. Um gesto simpático, que por vezes é, até mesmo, reconhecido pela sorte. Consta nos relatos dos mandurienses que em uma determinada cerimônia de formatura um vereador foi, inclusive, brindado com o celular sorteado na festa.

 

Mas não se enganem aqueles que pensam que é só de comemorações que vive o vereador. A agenda leva, como canta Milton Nascimento sobre os artistas, para onde o povo está – “Se for assim, assim será”, completa a letra da genial “Nos bailes da vida”. E por isso tem vereador que não falta a um velório. Se o cidadão da pesquisa da AMB espera receber o caixão do parlamentar, imagina se não espera pelo abraço dele!?! Claro que por vezes o cálculo político afasta. Em Anápolis, Goiás, a cerimônia fúnebre da dona de casa Maria José de Almeida mobilizou muita gente. Afinal, com 12 filhos e 81 anos a família era grande. Mas apenas três vereadores estiveram por lá de acordo com o site da APPEGO – Associação dos Papiloscopistas Policiais de Goiás. Um deles, seu neto, era esperado, e pintaram ainda Wesley Silva e Mauro José Severiano. Mas o que teria feito com que outros não estivessem por lá? Simples. Maria José era mãe de Carlinhos Cachoeira, que por estar detido à ocasião em Mossoró (RN) e ter seu nome envolvido com diversos políticos também não foi.

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