A eterna solidariedade de nossa política

Humberto Dantas

09 Novembro 2015 | 07h30

Está lá, no capítulo 5 da obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, escrito bem antes da metade do século XX: “o Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo”. Pois é. E o que seria capaz de nos manter tão próximos desse tipo de característica até hoje? O que nos falta para entendermos que parece impossível vivermos sob a sombra da mais absoluta confusão entre o público e o privado? Algo que no século XIX o pensador Max Weber já havia apontado como o elemento mais essencial para a consolidação de uma sociedade que se pauta em regras com caráter universal, no Brasil insiste em sobreviver. Esse maldito sentimento de que determinados agentes podem tomar para si o que é público em nome de seus projetos pessoais. Sejam tais questões individuais ou associadas a uma política mal feita e eternizada.

 

O exemplo que trago aqui pode parecer pequeno e repleto de boa vontade – para alguns será um absurdo eu tratá-lo de forma negativa. Assim: julgue você mesmo. Fique à vontade. Em João Pessoa, capital do estado da Paraíba, um vereador guardou em sua casa equipamentos de ginástica que seriam instalados numa praça em frente à residência, afirmando ser aquele o presente que ele e o prefeito ofertariam ao bairro pelo aniversário da cercania. A versão ofertada pelo representante é digna, inclusive, do nome do partido ao qual pertence: Solidariedade. Seu dom de ser solidário comove. Vamos à história.

 

O político fez um requerimento para a instalação de equipamentos de ginástica numa praça de um bairro de João Pessoa. No dia 23 de outubro o material chegou e foi descarregado por um caminhão. Por problemas técnicos não havia condições de instalação naquele instante. Solidariamente o representante disse que tudo poderia ser estocado em sua casa, e no dia seguinte os equipamentos foram regularmente alocados na praça. A polêmica que se seguiu foi grande. O político disse que agiu com a melhor das intenções, e que foi vítima de um jornalista que tentou o extorquir. Até aqui muitos cidadãos vão dizer que efetivamente o parlamentar foi bacana, agindo com boa vontade. À parte o fato de que esse tipo de guarda de materiais não é muito razoável, tudo poderia passar tranquilamente. E nesse caso o jornalista citado pelo representante pode mesmo ser da pior espécie. Mas vamos terminar a história com alguns pontos adicionais. Primeiramente: estranho que o requerimento de equipamento privilegie a praça onde mora o próprio vereador, mas paciência. Ele pode ter sido eleito fazendo campanha em nome do bairro, naquela lógica de distritalização que tanto encanta alguns. E nesse caso: o despachante do feudo zelou pela melhoria local. Segundo, e esse é o ponto mais grave: precisava do vídeo? Ué! Que vídeo? Pois é, assista aqui. O vereador gravou um vídeo e o postou nas redes sociais. Ao longo da narrativa mostra os equipamentos guardados sob a lógica solidária e diz que tudo aquilo é um presente dele e do prefeito para o bairro aniversariante. Presente? Pois é: “fruto de um requerimento nosso, uma grande conquista, a gente está dando de presente…”. Na gravação está claro que se não fosse a parceria entre prefeito e vereador a dádiva divina – inclusive a igreja é destacada na gravação – o grande milagre não teria ocorrido. É essa mesmo a função de um vereador? É dele e do prefeito o presente para o eleitor? Ou estamos diante de uma política pública que de forma organizada deveria servir aos cidadãos, atendendo às demandas da cidade? Entrevistado pelo UOL ele afirma que foi mal interpretado, e talvez não tenha sido feliz na questão do vídeo. Talvez? Eu iria além: o vereador MARMUTHE Cavalcanti (SD) teve a sensibilidade de um elefante em seu gesto. Mas tão pesado quanto o paquiderme é essa nossa cultura política repleta de boa vontade, de solidariedade.