A diretora de escola ‘militante’ de Mauá

Camila Tuchlinski

10 de outubro de 2014 | 08h00

O TRE manteve a cassação do vereador Manoel Lopes dos Santos (DEM), de Mauá, na Grande São Paulo, por abuso de poder político. Na eleição de 2012, ele contou com uma ajudinha de Jane Donatiello para distribuir santinhos na escola pública onde ela é a diretora.

De acordo com a Procuradoria Regional Eleitoral em São Paulo, o material de propaganda do então candidato à reeleição continha uma carta em que a diretora classificava Manoel Lopes como ‘muito atuante’ e que conseguiria ‘agilizar nossas reivindicações devido a suas constantes solicitações e bom relacionamento com os órgãos competentes do Governo do Estado’.

Os santinhos foram distribuídos aos alunos da escola e à todos que passavam em horário próximo do meio-dia, estrategicamente pegando estudantes dos dois turnos: matutino e vespertino.

Para o procurador André de Ramos Carvalho, a diretora cometeu abuso de poder: “Especificamente no que se refere aos servidores públicos, o abuso de poder possui conotação de desvio de finalidade, incorrendo em abuso o servidor que se utiliza da máquina pública ou do prestígio do cargo que ocupa para beneficiar certa candidatura, seja ela própria ou alheia”.

A defesa de Jane Donatiello e Manoel Lopes alegou que a diretora estava em férias e que a propaganda não fora distribuída apenas aos pais de alunos, mas indiscriminadamente. A Procuradoria rebateu, chamando atenção para o fato de a diretora enfatizar, na carta, seu cargo máximo na escola e direcionar sua fala aos pais e responsáveis dos alunos, como se fosse uma notificação oficial da instituição.

Bom, esse episódio me fez lembrar de duas situações. Nos anos 90, cansei de ouvir professor em sala de aula desabafar que, durante a ditadura, o educador não podia se pronunciar de maneira alguma a respeito de política. E de fato muitos foram perseguidos por integrantes do governo militar, que designava um agente à paisana (o famoso ‘cagueta’) para assistir às aulas. Dos anos 2000 pra cá, muitos professores fizeram questão de inserir o assunto no contexto da disciplina. Aí, viraram militantes de partidos…alguns, só faltavam pedir votos.

Sou contra esse tipo de ‘atuação’ em sala de aula. O professor deve ser imparcial, mas isso não significa que não possa transmitir conhecimento político aos estudantes. Pelo contrário! Defendo a disciplina política já desde o primário, com estímulos ao conhecimento dos departamentos de poder que são responsáveis por legislar, fiscalizar e administrar a vida do município, estado e de toda uma nação! Você já parou para pensar sobre isso? Por que não temos a disciplina Política nas escolas brasileiras?

Ah, muitos vão falar ‘mas havia Educação Moral e Cívica na minha época’. Errado! Eu tive essa disciplina e me lembro bem sobre o amor à pátria que era ensinado, de maneira superficial. Estou falando de educação política real. Aquela que vai proporcionar ao aluno conhecimento suficiente para que ele saiba escolher seus representantes. Aquela que fará com que o indivíduo seja capaz de decidir os rumos da sociedade de maneira consciente e não através de santinhos jogados no chão no dia da eleição ou distribuídos, como no caso da diretora de Mauá, na porta das escolas.

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