A candidata Ética, o prefeito Tranquilão e o stress do cidadão

Humberto Dantas

13 de junho de 2016 | 09h15

Ao longo dos últimos dias me deparei com a ex-prefeita Luiz Erundina se reafirmando como pré-candidata a Prefeitura de São Paulo pelo PSOL. O desafio é ver como ela chegará efetivamente ao dia da votação, pois em 2012 se colocou como vice de Haddad, mas foi só o atual prefeito e o ex-presidente Lula, ambos do PT, irem à casa de Paulo Maluf buscar o apoio do PP – na aliança entre grandes partidos que mais cresceu entre 2000 e 2012 pelo país – e ela desistiu do posto. Para muitos o gesto foi magnífico do ponto de vista ético, ideológico, moral etc. Nos microfones da Rádio Estadão, na noite do primeiro turno, deixei-a nitidamente surpresa quando lhe perguntei se diante da derrota “inesperada” de Russomanno, de um PT que performara abaixo do esperado nas urnas e de um Serra cansado, ela se sentia a “grande vencedora daquele pleito”. “Não! Trabalhei para Haddad na periferia e vou continuar pedindo votos pra ele no segundo turno”. Perfeito. Saiu daquela eleição como guardiã da moral, mas depois de reeleita deputada em 2014 mudou de partido (saiu do PSB e foi pro PSOL) utilizando-se de uma excrescência constitucional chamada de Janela de Transferência, aprovada por um Congresso corporativista, e se prepara pra fundar um novo partido. O PSOL, a exemplo do que foi o PSB pra Marina Silva, seria apenas um trampolim, um espaço de oportunidades. Ok. Esqueçamos de debater a tal ética. Vamos adiante.

Na eleição, Erundina deve captar um eleitorado mais à esquerda de um desgastado PT. Junto com Marta colocam Haddad num “centro petista”. As duas prefeitas ocuparão os polos desse espectro. Mas que não se confunda a formação política com o Trio Los Angeles, grupo musical da década de 80, por exemplo. Nada disso! Não é uma ação orquestrada. Ao menos não parece ser. Marta Suplicy fala diariamente mal de Haddad, a quem acolheu em sua passagem pela prefeitura. Gosta de criticar seus feitos. E foi exatamente isso que Erundina fez nos últimos dias. Criticou abertamente o que chamou de “governo medíocre, que não ousou em nada”. Será mesmo? Vamos dividir a crítica da deputada em dois pedaços: primeiro ela diz que Haddad precisava enfrentar o golpe de Temer. Discordo! A pergunta seria: como? Daqui? Em 2004 elegemos um prefeito que só queria ser presidente, e abandonou a cidade em 2006 para ser governador. Em 2008 reelegemos seu vice, mas até 2011 o que se viu foi um homem em busca de construir um partido e praticamente ignorar uma cidade. Será que São Paulo precisava mesmo que seu prefeito vestisse a armadura de Dom Quixote e investisse contra os moinhos de vento brasilienses? Não sei o quanto esse papel deveria ficar sob a responsabilidade de Haddad, o Tranquilão! Aqui ele cumpre o papel para o qual foi contratado por meio do voto.

No segundo ponto a ex-prefeita disse que Haddad abandonou a periferia. E desse assunto eu entendo bem. Todo ano, desde 2009, são pelo menos 20 visitas a organizações da periferia para dialogar sobre política com os jovens. Assim, não é só passar. É entrar, conversar, entender e até

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. E as reclamações existem, assim como os elogios. Haddad, nesse sentido, seria um prefeito comum: elogiado e criticado. Mas dizer que Haddad não ousou é exagero de Erundina. Concordo se disser que ousou demais, sem planejamento, de forma ostensiva e vertical, pra afrontar em termos ideológicos e incomodar de verdade. Haddad tentou reverter culturas, mas estas podem custar caro dada parte de sua arrogância, um conservadorismo exagerado do paulistano e o mau humor de setores da imprensa.

Uma dessas ousadias aparentemente descabidas está associada à ideia de fechamento das ruas aos domingos. Fantástico! Só que não! Impressiona que certas ruas sejam fechadas em locais onde existam tantas praças! E que estas praças estejam lá: vazias, abandonadas, sem segurança ou qualquer atração extraordinária. Não estou dizendo que TODAS estejam assim, mas vamos tomar o exemplo da Avenida Paulo VI / Sumaré. Dotada de uma das melhores ciclovias da cidade, precisa mesmo ser fechada? Ontem tinha Palmeiras x Corinthians no Allianz e a avenida que poderia servir de rota estava trancada para parcos ciclistas circularem às 15h00. Ok: opção da prefeitura. Que criou o caos no trânsito, em pleno domingo. E para fugir do congestionamento, que já nos abraça todos os finais de semana, comecei a circular o bairro. Para minha “surpresa” nenhuma praça ocupada, nenhum aparato público destinado ao lazer efetivamente tomado dessa forma. Num caso como este, fechar rua parece medida de filho bacana que ganha um quarto inteiro de brinquedo, mas gosta mesmo de armar o fuá na sala. Sem o quarto seria razoável brincar na sala, mas não é esse o caso!

A beleza de fechar uma rua para o lazer deveria ocorrer na ausência de praças próximas. Mas combinemos que Perdizes, Pacaembú e Sumaré transbordam de espaços dessa natureza que, com um mínimo de segurança, ficariam maravilhosamente coloridos, cheios de cidadãos, que poderiam estar envolvidos na conservação, dando lindas lições a seus filhos. Uso como exemplo o Belvedere da Lapa, ao lado de casa. Na última caminhada que fiz por lá, numa linda manhã de sábado, a ação de traficantes de drogas era nítida. Polícia? Guarda Civil? Segurança? Atividades da Prefeitura? Nada. É mais bonito fechar as ruas de bairros estruturados com o intuito de dizer que “a massa tomou as avenidas” do que lhes estimular a utilizar praças seguras e bem cuidadas. É assim. Vamos brincar na sala, pois o quarto de brinquedos é “chato, bobo e feio”.

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