A barbárie sob nossos olhos

Humberto Dantas

17 de fevereiro de 2014 | 08h00

Não é pequeno, e tampouco recente, o desafio de todo o mundo para conter absurdos sexuais contra mulheres e crianças. O problema maior é quando tais aberrações são institucionalizadas e resultam dos desejos de órgãos legitimados por parcelas da sociedade. Na Índia, uma moça de 20 anos foi estuprada por 12 homens de um conselho comunitário. A medida punia legalmente sua “ousadia” em se relacionar com um rapaz de outra comunidade. Como a família não tinha recursos para o pagamento de uma multa – é isso mesmo! – ela foi condenada. A sentença foi ouvida com o casal preso a uma árvore. Estamos no século XXI, ou seja, tal trecho não foi retirado de um romance da Idade Média.

 

No Brasil, por vezes, não nos distanciamos disso. Aberrações existem por aqui e são corroboradas pelo poder público. Quem não se lembra da menina presa entre homens e estuprada num presídio do Pará? De quem é a cadeia? Do poder público, é claro! Quem se lembra do então prefeito de Natal-RN, e novamente no poder local, dizendo não existir prostituição infantil na cidade enquanto as imagens do Jornal da Globo mostravam o contrário? E o cantor do Rio de Janeiro, ex-deputado federal, que curtiu uma de vereador em São Paulo sem conseguir se reeleger em 2012 que afirmou, em pleno exercício de mandato, que turistas não podem ser presos porque transam com meninas de 16 anos que fazem de tudo para “se tornarem atraentes”? Pois bem, existem coisas tão ruins ou piores que essas. Tudo protagonizado por agentes públicos e órgãos oficiais. Uma rápida espiadela no Google com as palavras: “prefeito”, “preso” e “pedofilia” nos remete a mais de 750 mil registros. Entre eles casos dos mais diferentes envolvendo políticos em vários estados. Recentemente se destaca a cidade de Coari, no Amazonas.

 

Chamada de terra do gás, em virtude das atividades da Petrobrás, seu prefeito foi acusado de pedofilia envolvendo meninas de 9 a 15 anos. O caso veio à tona no Fantástico, da Rede Globo. Em seu terceiro mandato, Manoel Adail Amaral Pinheiro é do PRP e sua coligação pregava “a volta do progresso” em 2012. Com mais de 70 processos nas costas, que tramitam faz mais de meia década e tratam de questões associadas à bizarra pedofilia, sua candidatura foi “deferida com recurso”. Trata-se de algo que o Ficha Limpa não foi capaz de barrar, mesmo com ele tendo sido preso, por exemplo, mais de 60 dias em 2008 como resultado da Operação Vorax da Polícia Federal, onde foi acusado de desviar cerca de R$ 40 milhões. Detalhe: parte dos processos contra ele simplesmente desapareceram. Opa! Então deve haver mais gente envolvida em tudo isso. Certamente sim, pois o prefeito é acusado de chefiar uma rede de prostituição e pedofilia, e em se tratando de bandos desse tipo é possível supor a presença de doentes dos mais diferentes poderes. Mas como ele foi eleito, depois de preso e acusado, contra outros três candidatos com 43% dos votos válidos? Essa mesma pergunta podemos fazer para o caso indiano: como um conselho da comunidade profere uma sentença de estupro coletivo? A barbárie não se restringe aos livros de história, ela está bem mais próxima do que podemos imaginar em termos geográficos e históricos. AO menos, no início de fevereiro, o brasileiro voltou pra jaula. Isso mesmo: jaula. Por razões óbvias.

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