A ‘anárquica era da informação’, por governo federal

Camila Tuchlinski

25 de julho de 2014 | 08h00

Que as redes sociais podem ser grandes aliadas na comunicação entre candidato e população, ninguém mais duvida. Mas a preocupação dos políticos com o assunto vai além da disputa eleitoral.

A Prefeitura de Curitiba, por exemplo, decidiu criar uma linguagem bem humorada para aproximar instituição e cidadão. Na divulgação sobre reformas dos faróis da cidade, o twitter oficial da prefeitura publicou: ‘Decisão de reformar faróis do saber não tem relação com fato deles serem seguros em caso de invasão zumbi. Obrigado’ (veja o link aqui https://twitter.com/Curitiba_PMC/status/455701220452077569/photo/1). A página no Facebook de Curitiba é curtida por mais de cem mil pessoas – quase 10% da população da cidade.

Na mesma linha, a Prefeitura de Porteirinha, no norte de Minas Gerais, adotou a estratégia perfeita para se aproximar das pessoas: nenhuma crítica ou sugestão do cidadão fica sem resposta.

Em novembro de 2013, cinco meses após os grandes protestos pelo País, o governo federal publicou, no site da Presidência, o ‘Manual de Orientações para Redes Sociais’. O objetivo: orientar os servidores públicos sobre os perigos das informações divulgadas em perfis no Facebook ou Twitter institucionais.

O documento está disponível para qualquer um na internet, porém é recomendado para jornalistas e analistas de mídias sociais que trabalham com as interfaces do Governo Federal. São 77 páginas de recomendações sobre o comportamento dos usuários na web. Tomei a liberdade de separar alguns trechos que mais chamam atenção. Ah, uma dica: ao ler os tópicos abaixo (ou o PDF do manual ao fim deste post) tente trocar mentalmente as palavras ‘instituição’ e ‘empresa’ por ‘governo’

Informação descontrolada

Perceba que, hoje, o próprio cidadão é quem propaga um determinado fato primeiro. Dada a amplitude das redes, a soma das vozes de todos acabou “engolindo” a força da imprensa tradicional e gerando assim um fluxo anárquico de informação e de opiniões’, página 09 do Manual de Orientações para Redes Sociais da Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

E, ainda, na página 10: ‘(…) este novo e irreversível modelo abre também uma era em que a informação deixa de ser democrática e passa a ser absolutamente anárquica (…)’. Então quer dizer que expressar opiniões nas redes sociais não é democrático?

Os dogmas das redes sociais, segundo o governo

Dogma 1 – ‘(…) se tratam de pessoas (usuários das redes sociais) com pouco tempo disponível e cujas opiniões são rapidamente formadas pelos conteúdos que enxergam em suas redes de relacionamento. Ou seja: não é mais necessária a confirmação de uma determinada ocorrência por algum veículo crível de mídia para que esta ocorrência seja encarada como verdade pela maioria das pessoas. Essa “crença cega” independe da fonte da informação, mas vai se fortalecendo na medida em que mais e mais usuários vão comentando a mesma afirmação. Infelizmente, não há como se blindar contra o surgimento de crises geradas por este dogma – mas a agilidade na reação passa a ser fundamental. E, para ter agilidade, é também fundamental monitorar a presença da marca e o boca-a-boca referente a ela, detectando sinais de boatos antes que eles se fortaleçam.’

Dogma 2 – ‘Aqui, parte-se de princípios mais maniqueístas, que pregam que empresas de grande porte existem e crescem unicamente por explorar os seus funcionários e enganar os seus clientes.’ Neste caso, acho que poderíamos, de verdade, trocar as palavras ‘empresas de grande porte’ por ‘políticos’ e ‘funcionários’ e ‘clientes’ por cidadãos brasileiros.

Como a instituição (governo) deve agir?

‘Toda instituição de grande porte – o que inclui, naturalmente, o governo como um todo – deve estar preparada para situações que incluem todo tipo de ataque e distorção informacional partindo da base anárquica e anônima de cidadãos plugados na rede’.

Prevenir é melhor que remediar

Em uma das páginas do Manual de Orientações sobre Redes Sociais do governo, algumas situações são previstas e listadas para os servidores:

‘1. Os próprios servidores públicos vão falar mais do que devem nas redes. Seja

criticando programas, ações ou a própria hierarquia governamental, é natural,

em algum momento, que algum dos colaboradores acabe expondo a

instituição nas redes sociais e danificando o seu ecossistema político. 

2. Alguém vai descobrir um ponto fraco seu e explorá-lo. Normalmente, isso

significa alguma entidade política lançando uma ação focada justamente em

aumentar a exposição de uma fraqueza sua, de algum “flanco” deixado mais

aberto e exposto nas redes. 

3. Alguém vai “inventar” ou “aumentar” algum problema – e você será

possivelmente encarado como culpado. Este ponto refere-se justamente a

boatos nascidos nas redes e que costumam carregar grande potencial de crise.’

Falem bem ou falem mal, o segredo é monitorar

‘Monitorar cada um dos órgãos e principais temas/campanhas nas redes sociais, detectando todo e qualquer tipo de crise em potencial.’

O termo ‘influenciadores’ toma lugar de ‘formadores de opinião’, no entendimento do governo: ‘essa relação de influenciadores deve ser monitorada de forma próxima pela instituição, servindo de base para qualquer tipo de ação ou resposta a ser dada. Deve-se considerar um influenciador como qualquer usuário com perfil ativo nas redes sociais e que compartilhou qualquer tipo de conteúdo relacionado à instituição.’

Ah, e existem influenciadores ‘do bem’ e ‘do mal’: ‘influenciadores que costumam tecer comentários positivos à instituição devem ser considerados como seus evangelizadores naturais, ao passo que influenciadores mais críticos devem ser considerados os seus agressores. Assim, deve-se priorizar os evangelizadores mais influentes em todo tipo de campanha, municiando-os de informação direta via relacionamento com os perfis oficiais coordenados pelo Gestor de Comunidades.’ Alguém aí se lembrou de um perfil chamado ‘Dilma Bolada’ no Twitter e Facebook? Aliás, no Facebook, o administrador decidiu cancelar a conta, pelo menos até o fim das eleições.

Liberdade de expressão X liberdade de opinião

‘Todos têm, e devem continuar tendo, liberdade de opinião – mas, a partir do momento em que se está vinculado a uma instituição, tudo o que for postado pode ser encarado pelos usuários como sendo a mensagem da própria instituição’. De que adianta ter liberdade de opinião, se não é possível expressá-la?

Crise na imagem institucional das redes sociais

‘O que acaba definindo uma situação de crise é justamente a audiência, seja ela concreta ou ainda potencial, e os consequentes danos que podem ser causados à marca’. Isso quer dizer que, se você, como cidadão comum, fizer alguma crítica ou reclamação e não ter o post retuitado ou compartilhado por milhares de pessoas, provavelmente a ‘instituição’ não dará a mínima atenção.

Bom, se depois de ler esse post ainda tiver ânimo de conferir a íntegra do Manual de Orientações sobre Redes Sociais da Secretaria de Comunicação, eis o link:

E boa leitura!

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