90 dias de Dória

Eder Brito

31 Março 2017 | 11h43

Um mandato de governo municipal tem 1461 dias. São quatro anos, já incluindo um ano bissexto aí na jogada. É tempo o bastante para trabalhar muito e cooperar com muita mudança efetiva. Na realidade, julgo que mesmo os 1461 dias são pouco para algumas mudanças estruturais e culturais da qual a administração pública realmente precisa. Se estivermos falando de apenas 100 dias, pior ainda. Dá para inspirar, dá para motivar, dá para demonstrar espírito de inovação. Dá para sugerir um novo ritmo, mas não dá para comemorar grandes feitos. No entanto, daqui a 10 dias, nós veremos um fenômeno interessante, quando toda a imprensa começar a publicar a avaliação dos 100 primeiros dias de trabalho de Prefeitos e Prefeitas do Brasil, um balanço que pode ser bastante injusto em alguns casos, pois o tempo necessário para mudanças profundas ainda não transcorreu.

 

Um dos grandes fenômenos nessa esfera de avaliação certamente será o Prefeito de São Paulo, João Dória. Em meio a todo o descrédito relegado aos partidos e suas figuras clássicas, o chefe do executivo da capital paulista tornou-se uma referência de “novidade” na política e já vem sendo cotado como presidenciável, com apenas três meses de mandato. Dória também tem priorizado o relacionamento com a iniciativa privada, em busca de doações e parcerias. O tema é visto com bons olhos por parte de seu eleitorado, mas pode representar problemas de fiscalização e controle, como bem observou o cientista político Sérgio Praça em texto no mês passado.

 

A inovação de João Dória, no entanto, não está na gestão pública, tampouco na sugestão de parcerias com a iniciativa privada, mas sim na importância que dá às ações de comunicação pública e ao ritmo imprimido na gestão dessas ações. O prefeito acertou a mão nesse sentido e usa bem todas as tecnologias de informação e comunicação disponíveis. Mantém uma das páginas mais ativas da política nacional no Facebook, um verdadeiro “BBB da gestão municipal”. Em tempos de necessidade de transparência, controle social e lei de acesso à informação isso é ótimo. Dória até criou um programa chamado “Olho no Olho” onde entrevista convidados, falando de problemas da cidade e respondendo ao vivo às perguntas de internauta. Já entrevistou os cantores Roger Moreira e Lobão, por exemplo.

 

Dória também inovou no número de coletivas de imprensa concedidas por um Prefeito. Seus antecessores, Haddad e Kassab principalmente, tinham o hábito de atender à imprensa ao final de eventos oficiais de sua agenda, em algum “cantinho” ao lado do palco ou na saída corrida de algum evento. Dória faz questão de convocar momentos específicos para atender aos jornalistas, em um número quantitativamente mais expressivo. Faz o contrário da maioria dos políticos, muitos deles pouco dispostos a atenderem à imprensa com frequência, com medo do tom inquisitivo que normalmente toma conta desse tipo de cobertura. Se usarmos o programa “Corujão da Saúde” como exemplo fica fácil de perceber o ritmo diferente. Dória convocou coletiva de imprensa para o anúncio de início do programa. Pouco mais de um mês depois foi a vez de uma coletiva de imprensa para celebrar o atendimento de número 100 mil. Tempos depois, veio a terceira coletiva, em menos de três meses, para comemorar o atendimento de número 250 mil do mesmo programa.

 

Junte-se a tudo isso, os momentos “cosplay” protagonizados por Dória em seu até agora curto mandato, vestindo-se de gari, pintando paredes e adotando o estilo xerifão, com visitas surpresas a órgãos públicos. Tudo isso sempre transmitido o tempo todo e registrado em suas redes sociais. Esse ritmo ajuda a construir uma sensação de produtividade que realmente soa nova aos ouvidos do eleitor. Seus antecessores falharam no quesito comunicação, por mais que alguns resultados mostrem que também foram comandantes de gestões extremamente produtivas. Por isso, se tem algo que outros prefeitos e prefeitas do país podem aprender com os 100 primeiros dias de João Dória certamente precisamos falar de comunicação pública. O resto é a boa e velha administração pública e a clássica agenda político-partidária, por mais que ele tenha sido eleito negando a última, por mais que ainda tenha gente que defenda essa bandeira. O fato de alguém conseguir considerá-lo presidenciável com apenas 90 dias de mandato fala muito mais dos potenciais problemas políticos do PSDB com a justiça brasileira do que de qualquer outra coisa. E quando se completarem 100 dias, essa ainda será a realidade.