A volta dos que se foram

Humberto Dantas

26 de janeiro de 2015 | 07h39

O município é novo, dessa leva surgida após a Constituição Federal de 1988. Completou 20 anos em 2014, e em 2016 completaria oito anos sob a responsabilidade do prefeito Neto Teixeira, do PMDB. Estamos falando de Cidelândia, localizada no estado do Maranhão. E se o estado é este, por mais que o partido seja “um pouco” descentralizado na forma de ofertar apoio, é possível que Neto apoiasse o candidato a governador Edinho Lobão – suplente de senador, filho de senador, filho de ex-ministro e indicado da família Sarney derrotado no primeiro turno no mais recente pleito para governador pelo “comunista” Flávio Dino.

E é exatamente esse movimento que foi registrado pelo jornal O Estado do Maranhão ao longo das eleições de 2014. Ao publicar uma lista de prefeitos que apoiavam, ou apoiariam Edinho, o jornal mandou ver no nome de Neto Teixeira. A informação está registrada no Blog do Domingos Costa. Importante destacar que o citado jornal maranhense faz parte de um conglomerado chamado Sistema Mirante, que de acordo com o site Os Donos da Mídia possui 22 empresas, dentre elas 12 rádios em AM (OM), cinco em FM e quatro transmissoras de TV, com destaque para os canais da Rede Globo que cobrem o estado. Entre os sócios de partes do império midiático a ex-governadora Roseana Sarney, o deputado federal Zequinha Sarney (PV-MA), irmãos, esposos, membros da família Murad e, como dizem no nordeste brasileiro, um “mundo de gente” totalizando 45 pessoas. Ainda assim, com toda essa força, Edinho perdeu as eleições, e olha que o grupo precisou registrar o apoio de Neto Teixeira.

Aos leitores mais impacientes já deve ter surgido a dúvida: mas por que se fala tanto no apoio de um prefeito de uma cidade com 13 mil pessoas? O que ela teria de tão impactante no resultado final de um pleito para governador? Seria o fato de Flavio Dino ter conquistado o apoio de 77% do eleitorado contra 23% de Edinho Lobão? Não. Pois isso ocorreu em diversos outros lugares, afinal de contas Dino venceu o pleito no primeiro turno com cerca de 900 mil votos de diferença, praticamente o dobro das adesões de seu maior concorrente. Mas então o que teria ocorrido? O fato é simples, o jornalismo, aquele que tem como principal intuito elevar o nível de informações do eleitorado, por vezes parece transmitir a notícia de forma pouco atenta – claro que a afirmação pode estar absolutamente associada a uma falha, a um erro que pode ocorrer em qualquer local. E foi exatamente isso que se passou. Ao anunciar a lista de prefeitos que, “em massa”, apoiavam a candidatura de Edinho Lobão o periódico deixou de considerar que Neto Teixeira se deparou com uma ocorrência que, para parcelas expressivas da sociedade, não lhe permitiria tomar a posição anunciada. E isso nada tem de relação com a política. Em abril de 2013, após internação hospitalar e luta contra um fungo ou bactéria alojado em seu cérebro, o então prefeito de Cidelândia faleceu em São Luís. Erro do jornal ou desespero político? Difícil dizer, mas em um país em que é fácil ouvir dizer que morto vota e assina lista de apoio para a formação de partido político, nada mais esperado do que alguém declarar que morto também oferta apoio eleitoral.

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