A moda que “veste” o Judiciário

Humberto Dantas

24 de março de 2014 | 08h03

A Ciência Política aponta que o Judiciário é encastelado em uma torre de marfim distante da sociedade. A sentença é corroborada por críticas do próprio poder. Joaquim Barbosa é um dos agentes que protagoniza tais discursos, ao mesmo tempo em que é questionado por também ultrapassar alguns limites. O problema seria então cultural? Provavelmente. O fato é que no Judiciário parece existir um mundo à parte repleto de um glamour diferente daquele vivido nas ruas. Talvez seja isso que justifique a passagem do desembargador que, em Natal-RN, arrasou um funcionário de uma padaria que lhe trouxe gelo em um “humilhante” copo de plástico. Ou a história da juíza que mandou o cidadão grampear a própria camisa dada a falta de um botão. Ou ainda o bizarro caso de um juiz de Cascavel-PR que suspendeu uma sessão porque o denunciante apareceu de chinelo perante “vossa majestade”. Descaso? Não: condição social mesmo, amigo. “Sensibilizado” o juiz tentou lhe doar um par de sapatos, mas o sujeito preferiu recusar e utilizou um pisante emprestado pelo sogro no novo “encontro”. O Judiciário parece protagonizar mesmo um mundo à parte. Detalhe: alguns de seus membros têm um orgulho assustador dessa “condição de superioridade”.

 

Vejamos mais um exemplo. Em parte expressiva dos estados brasileiros o que mais verificamos é o jornalismo social com gestos de absoluto louvor aos amigos, autoridades e patrocinadores. Faz alguns anos um conhecido levou sua empresa para o interior de um desses estados. E me confessou: “estava desesperado, ia viver isolado”. “E o que fez?”, perguntei. “Procurei a coluna social do maior jornal da cidade e patrocinei o sujeito. Foi a melhor coisa”, contou orgulhoso. Hoje é convidado até pra batizado de cachorro. Lamentável. Pois bem, no Rio Grande do Norte existe disso, e aos montes. Os colunistas são celebridades, inclusive incapazes de entenderem os limites geográficos de suas lamentáveis famas. No aeroporto de Lisboa, faz alguns anos, um deles furou a fila a minha frente no check-in dando “carteirada” de colunista. Minha revolta se misturou às lamentações e risadas. O povo perdeu a noção!

 

Mas e o Judiciário? Faz algumas semanas a revista Bzzz, de uma dessas colunistas sociais potiguares, publicou matéria sobre a moda dos mais elegantes membros da justiça. Como é? Isso mesmo: a jornalista escolheu os magistrados federais que melhor se vestem no estado e lhes dedicou páginas de seu periódico. A “reportagem” parece um book, mas o concurso associado a tais profissionais não é o de miss, e sim os concursos públicos que deveriam zelar pela lógica republicana. Nas fotos, corpos inteiros e closes nas vestes. Os sorrisos dão a dimensão do orgulho de posar e da vaidade. Detalhe: parte expressiva das imagens tem forte alusão ao fato de estarem em gabinetes sofisticados. Estariam em horário de trabalho? Impossível dizer. No texto, as marcas preferidas de ternos, sapatos, relógios e gravatas da mais alta qualidade e preço. Enquanto isso, o CNJ aponta em seus relatórios que ainda falta capacitação técnica para o trabalho e alguns processos se arrastam na justiça. Sorrir é fácil, pra coluna social então: moleza. O problema é esperar do Judiciário uma postura condizente com a realidade social, capaz de gerar uma “elegância democrática”, que nada tem a ver com marcas famosas ou com o status ofertado por um bom relógio combinado com uma brilhante gravata na “moda” que parece vestir parte de nossa magistratura.

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