Entre pontes e pinguelas

Humberto Dantas

24 Janeiro 2014 | 07h58

Pontes ligam pontos, normalmente afastados por algo que inviabilize ou dificulte a construção de uma estrada, rua ou avenida. Assim, façamos uma ponte desse blog com o blog de meu colega de portal e rádio Guga Chacra. Por lá lemos recentemente que as chances de o governador de Nova Jersey ser o candidato republicano à presidência do país em 2016 diminuíram por conta do que podemos chamar de uma sabotagem arquitetada, no mínimo, por uma pessoa de sua equipe e um amigo de infância que ele lotou na diretoria da empresa responsável pela administração de uma das pontes mais movimentadas do mundo: a George Washington. É isso mesmo, nos Estados Unidos amigos também são indicados para cargos públicos. De acordo com e-mails descobertos a assessora e o brother do governador decidiram fechar duas pistas da tal conexão viária em represália ao fato de o prefeito democrata de Fort Lee não lhe dar apoio nas eleições. Na comunicação, os aloprados do norte riem do caótico trânsito e se divertem com os males causados às crianças que se atrasaram para as aulas. Guga afirma que no Brasil não há escândalo parecido. Será?

 

Em maio de 2007 o repórter Valdo Cruz, da Folha de S. Paulo, afirmava que a Operação Navalha, da Polícia Federal, não lhe espantava pela prisão de corruptos acusados de desvios de verbas do PAC envolvendo agentes públicos e a Construtora Gautama. O que lhe assustava era a imagem de uma ponte incapaz de ligar um ponto a outro. Ela simplesmente havia sido construída para dizer que recursos públicos foram utilizados. De um lado nada de estradas, do outro idem. Mas onde isso ocorreu? Em Tutóia, no Maranhão. Pertinho dali, Barreirinhas. Recentemente, um piloto de moto paulista acostumado com aventuras estradeiras e com a poeira dos ralis percebeu que a pobreza do local contrastava com um excessivo número de luxuosos veículos 4×4. Como sua moto também chamava a atenção, o dono de um dos carrões puxou assunto. Feitos os elogios mútuos aos belos veículos, veio a indagação do forasteiro sobre as belas pontes da região: “ao invés de construir esses monstros, os prefeitos não poderiam pensar em escolas, creches, saneamento e coisas do tipo?”. “Nada disso!” respondeu o local, filho de um político. “Se resolvermos problemas dessa natureza, o governo federal desiste de mandar recursos para a cidade”, emendou.

 

Diante do diálogo, as barreirinhas parecem ser de caráter e Guga tem a mais absoluta razão. É pouco provável que no Brasil exista um escândalo como aquele revelado em Nova Jersey. Se por aqui existem pontes que não ligam nada a lugar algum, “sabiamente” elas parecem proteger nossas crianças e tantos outros cidadãos das sabotagens de Nova Jersey. Detalhe: falo das pontes de concreto e não das pinguelas políticas que ligam fisiologicamente os mais diferentes representantes e seus interesses escusos e pouco razoáveis! Essas são firmes e inabaláveis, surgindo apenas como barreirinhas à democracia e à cidadania.