Black Power: sem preconceito!

Humberto Dantas

11 Dezembro 2013 | 08h11

Vivemos numa sociedade preconceituosa ou abusamos dos limites desse debate para dizer que tudo é preconceito? Em alguns casos fica complicado demais defender essa segunda opção. Em Guarulhos uma mãe denunciou a diretora de uma escola que pediu para que seu filho cortasse o cabelo ao estilo “black power” por considera-lo “inadequado”. O menino e seu penteado atrapalhariam o aluno sentado na cadeira detrás. “Impossível ver a lousa”, alega a direção da escola. Será? Impossível é crer que a tesoura seja a forma encontrada pela brilhante representante da escola para resolver o problema, tolhendo a liberdade do menino e escancarando um racismo assustador. Quanta habilidade da educadora para zelar por princípios gerais da formação de cidadãos! O absurdo segue o ritmo de algumas sugestões ofertadas à Rede Globo acerca do cabelo do personagem Jaiminho, que na trama de Amor à Vida é o garoto adotado por um casal homossexual. Mais racismo! O caso também nos aproxima das eleições para prefeito de Nova York.

 

Por lá, Bill de Blasio foi o primeiro democrata eleito nos últimos vinte anos. Casado com uma mulher negra, seu discurso foi absolutamente incisivo contra as profundas desigualdades e preconceitos vividos na cidade. Seu filho Dante ostenta um “black power” digno dos anos 70, e a “liberdade” que o pai lhe oferta para o uso do penteado foi algo positivamente explorado durante a campanha. Alguns republicanos chegaram a afirmar que esse fator foi decisivo. Já imaginou se Dante estudasse com a diretora de Guarulhos?

 

Pior: já imaginou se a moda pega? Se resolve contaminar a justiça eleitoral? Isso certamente teria abalado Anesio Ribeiro Santos Filho e Natalino Rodrigues Batista em 2012. O primeiro, músico natural de Itarantim, na Bahia, foi candidato a vereador pelo PSDC em Itapetinga. O segundo, comerciante natural de Lins, em São Paulo, foi candidato à vaga na Câmara de Bauru pelo PPS. Em comum o mesmo nome na urna: Black Power. No caso do paulista, na verdade: Natal Black Power. Na foto um senhor grisalho de cabeça quase raspada. Assim, é o baiano quem ostenta o penteado ao estilo Sweet Lou Dunbar, personagem de um grupo de acrobatas do basquete norte-americano chamado Harlem Globetrotters. No desenho animado feito em homenagem ao time era ele quem tirava qualquer objeto da vasta cabeleira para salvar o grupo das maiores enrascadas. Teria Anesio esse mesmo dom? Se sim, faltou tirar votos para ele e, porque não, para Natalino. O paulista teve apenas 24 adesões, enquanto o baiano somou 131. Nada de eleição. Nesse ritmo, seria bastante razoável dizer, inspirado pelo espírito de Nelson Mandela, o mesmo para o preconceito: Nada de racismo! Basta! Chega!