Volodymyr Zelensky: um presidente outsider na mira de Putin

Volodymyr Zelensky: um presidente outsider na mira de Putin

REDAÇÃO

28 de fevereiro de 2022 | 21h14

Roberta Picussa, Doutoranda em Ciência Política (UFPR) e integra o Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil da UFPR. É também assessora legislativa da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP)

As questões que motivaram a invasão da Rússia à Ucrânia são complexas e remontam a histórica disputa territorial e cultural entre elas remanescentes da extinção da União Soviética. Enquanto várias regiões da Ucrânia possuem grupos separatistas e pró-Rússia, outras buscam afirmar a unidade do seu país enquanto povo e nação independente. Há outras ainda que buscam se aproximar da União Europeia.

Em um cenário como esse, um elemento que se destaca no conflito militar é a discrepância no perfil de seus presidentes.

De um lado, Vladimir Putin é um autocrata na liderança da Rússia há mais de 20 anos, com longa carreira política e burocrática: foi tenente-coronel da KGB, vice-prefeito de São Petesburgo (1994-1996), Diretor do Serviço Federal de Segurança (1998-1999), duas vezes primeiro-ministro (1999-2000; 2008-2012) e está desde 2012 no segundo mandato presidencial (2000-2008; 2012 até agora).

De outro lado, está Volodymyr Zelensky, um comediante, roteirista e diretor de TV sem qualquer experiência política antes da sua eleição à Presidência da Ucrânia ocorrida há menos de três anos. Ele ficou muito popular ao interpretar em um programa de humor um cidadão indignado contra a corrupção que se torna presidente do país.

Em 2019, Zelensky disputou a Presidência com outros 44 candidatos. No primeiro turno, apenas quatro  conseguiram conquistar mais de 10% dos votos. Zelensky teve 30,4%, seguido pelo então presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko (16%), com quem disputou o segundo turno. O estreante superou adversários com larga experiência política concorrendo pelo partido “Servo do Povo”, mesmo nome do show de TV que estrelava. Yulia Tymoshenko, então deputada e ex-primeira-ministra da Ucrânia teve menos da metade dos seus votos (13,4%) e Yuriy Boyko, deputado e ex-ministro de combustíveis e energia do país, 11,6%. No segundo turno Zelensky bateu Poroshenko, um bilionário ex-ministro de dois governos anteriores e líder do partido Solidariedade, com mais de 73% dos votos.

Com essa vitória, o ucraniano entrou para o rol de presidentes outsiders da nova onda das democracias, juntando-se a Alberto Fujimori do Peru, Hugo Chavez da Venezuela, Fernando Lugo do Paraguai, e o empresário e apresentador de TV Donald Trump dos EUA.

Assim como “todas as famílias felizes são iguais” e “as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” (Tolstoi), há vários tipos de outsider e, por isso, esse é um fenômeno complexo. É sempre possível não ser outsider, mas parecer um.

Robert Barr publicou em 2009 um artigo seminal sobre o tema. Sua principal contribuição foi argumentar que, enquanto políticos outsiders são identificados e classificados a partir de sua posição em relação ao sistema político (dentro ou fora dele), em muitos casos líderes que não são novatos ou forasteiros na política adotam um discurso contra o establishment político. Foi o caso do Presidente do Brasil Jair Bolsonaro, que embora tenha tido uma longa carreira na Câmara dos Deputados, emplacou uma arenga contra a classe política brasileira e o problema “endêmico” da corrupção.

Miguel Carreras, professor de Ciência Política na Universidade da Califórnia, elaborou uma classificação distinguindo três tipos outsiders: 1) os Amadores seriam políticos com pouca ou nenhuma experiência na política institucional, mas que competem por partidos tradicionais; 2) os Rebeldes são os que já pertenceram a partidos bem consolidados no sistema político, mas concorrem eleitoralmente por partidos novos ou marginais ao sistema; e 3) os Outsiders completos são políticos sem qualquer carreira política prévia e que disputam eleições presidenciais por um partido novo.

Esse último é o caso do presidente Volodymyr Zelensky da Ucrânia. Ele chegou à Presidência sem ter tido qualquer experiência política e sem carreira nos partidos tradicionais do país. Além do figurino do outsider clássico, Zelensky também era adepto do discurso típico contra o establishment. Esse discurso, e suas variantes (antipolítica, antissistema), é cada vez mais presente nas plataformas eleitorais dos partidos europeus dada a crescente insatisfação das pessoas com o desempenho econômico dos governos e a corrupção da classe política.

A corrupção da classe política, aliada ao sentimento de descolamento dela com os problemas reais dos cidadãos, tornam-na alvo para ataques da mídia e da opinião pública. Por outro lado, esse tipo de visão sobre o establishment político tende a subestimar as habilidades específicas dos políticos de profissão, uma delas imprescindível neste episódio que é a capacidade de negociação e de resolução de conflitos de forma pacífica.

O povo ucraniano, ao eleger um completo outsider à Presidência, colocou na posição mais importante do país um homem sem a experiência política para exercer o cargo. Em outros governos liderados por outsiders, essa falta de habilidade ficou mais evidente na incapacidade de formar coalizões para governar o país ou nos movimentos de incitação popular para subverter o poder e as instituições democráticas de seus países.

Zelensky tem respondido de maneiras inusitadas: divulga uma foto fantasiado com acessórios militares em uma rua da capital, e é exaltado pela opinião pública como um líder apaixonado pelo seu povo por permanecer em Kiev, conclamando os ucranianos para a luta direta contra soldados russos e afirmando que os ucranianos “não têm medo”, enquanto centenas de milhares deixam o país se refugiando nos países vizinhos.

O grande dilema é: como escapar da velha classe política, marcada pela corrupção e pelo apego ao poder, mas sem cair na armadilha dos salvadores outsiders colocando o destino do país nas mãos inaptas de um político não político?

Referências

Barr, R. R. (2009). Populists, outsiders, and anti-establishment politics. Party Politics, 15(1), 29-48. https://doi.org/10.1177/1354068808097890

Carreras, M. (2012). The rise of outsiders in Latin America, 1980-2010: an institutionalist perspective. Comparative Political Studies, 45 (12), 1451-1482. https://doi.org/10.1177/0010414012445753

Carreras, M. (2013) ‘Presidentes outsiders y ministros neófitos: un análisis a través del ejemplo de Fujimori’, América Latina Hoy. Salamanca, 64(64), pp. 95–118. https://doi.org/10.14201/alh.10244

Figus, A., Alberti, A. and de Serio, L. (2020) ‘Ukraine a country in crisis between Europe, Russia, and a complex electoral process’, Geopolitical, Social Security and Freedom Journal, 3(1), pp. 87–119. https://doi.org/10.2478/gssfj-2020-0007

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