Vivendo na pandemia: da resiliência social à mudança de emprego

Vivendo na pandemia: da resiliência social à mudança de emprego

REDAÇÃO

10 de fevereiro de 2022 | 12h21

Nathália Araujo Vieira Bruni, Graduada em Administração Pública (FGV-EAESP) e Trainee Business na AMBEV

Baseada nos pensamentos do autor Zack Magiezi, já me li em tantos livros e artigos que hoje enxergo possibilidades de me descrever. Descrever-me do ponto de vista de alguns aprendizados que tive no passado, do presente e que almejo viver no futuro. Vale iniciar esta reflexão com a atualidade. A pandemia trouxe mudanças estruturais profundas, deturpando as noções de cultura e sociedade e trazendo à tona a necessidade de readaptação: do nosso eu com o todo e do nosso eu com nossa própria individualidade. Logo, se por um lado as ruas nos remetem à livre circulação de pessoas, por outro, interferem na livre circulação de pensamentos.

Em paralelo, lembro da primeira vez que estive em contato com os reflexos da pandemia no meu cotidiano. Digo reflexos, pois tendo consciência de meus privilégios, não posso dizer que a vivi como pessoas que tiveram seu quadro social, cultural e econômico afetados – ou ainda mais acentuados – com a crise trazida pela Covid-19 e, tampouco, tive familiares sendo parte dos (aproximadamente) 635 mil mortos registrados no Brasil até o início do mês de fevereiro de 2022. Entretanto, acredito que os reflexos que senti desde o início da pandemia tenham contribuído para a minha trajetória pessoal e profissional do ponto de vista de um “ser pensante” – o que é um privilégio por si só, dado que tive – ainda durante a pandemia – a oportunidade de estar inserida em lugares que me incentivaram a ser um indivíduo que reflete e age no sentido da transformação cultural e digital que estamos vivendo como sociedade. Fato este que trouxe como consequência todas as portas que me foram abertas e que, de alguma forma, podem servir de aprendizado e de colaboração com a trajetória de outras pessoas.

Assim, trago como ponto de partida desta narrativa um fator que considero crucial para a minha atual trajetória, minha estadia na Espanha. O primeiro caso de coronavírus registrado na Espanha foi confirmado em 1º de fevereiro de 2020 na ilha de La Gomera[1], a segunda menor das principais ilhas do arquipélago espanhol das Canárias, chamando a atenção de autoridades e da população catalã como um todo. Como estava realizando um intercâmbio na ESADE[2], em Barcelona, que é parceira da minha faculdade de formação, a Fundação Getúlio Vargas[3], pude vivenciar de perto esse contexto. Logo, tal como escrevi em artigo que publiquei no Estadão em março de 2020: Que loucura é reparar no entorno, que nunca deixou de, aqui, estar”. Foram cerca de 50 dias sentada na janela do local onde vivia observando e escrevendo sobre o que enxergava, ora pela do quarto, ora pela da sala, com um principal intuito: compartilhar. Compartilhar sensações que eu sentia e que me aproximaram das outras milhares de pessoas que viviam em cada uma das janelas que os meus olhos podiam alcançar e, até mesmo, que estavam vivendo distantes de mim. E tudo isso teve como consequência direta a tal “livre circulação de pensamentos” que, a meu ver, pode ser entendida como parte de nosso processo de autoconhecimento.

Não à toa, quando entramos em contato com o nosso eu, percebemos que a relevância conferida a este tema é inestimável. Nas diversas relações sociais (e.g., familiares, profissionais, educacionais) é comum o indivíduo ser solicitado para relatar o seu próprio comportamento ou as contingências a que foi exposto, uma vez que os autorrelatos permitem que a comunidade acesse eventos aos quais apenas o indivíduo tem acesso (e.g., sentimentos, desejos, pensamentos, ideias), mas que podem ser similares a situações específicas experimentadas por alguém.[4]

Desde então, optei por compartilhar minhas reflexões, o que fazia desde criança em um bloco de papel, com pessoas próximas e até mesmo distantes de mim – como quando tive meu primeiro artigo publicado no Estadão – como forma de me libertar de algo que pensava que cabia só a mim e que não interessava a mais ninguém. Não tinha consciência de que um indivíduo poderia vivenciar o mesmo que eu, mesmo que dentro de outro contexto. Paralelamente, graduada em Administração Pública, busquei uma oportunidade de emprego que me instigasse tal como as aulas focadas no Terceiro Setor que pude assistir durante minha Graduação. Com esse espírito, iniciei minha trajetória profissional em uma das mais renomadas instituições não governamentais, o Comitê Organizacional da Cruz Vermelha[5] que foi o pontapé pessoal e profissional para que eu percebesse quais eram possíveis ações que a sociedade civil pode ter – do ponto de vista de seres ativos e pensantes – com relação a grupos em situação de vulnerabilidade.

Mesmo porque, como realiza trabalhos humanitários em cerca de 80 delegações em todo o mundo, tal organização monstrou para mim não só o impacto que minha formação teria sob a vida de outras pessoas, ainda que indiretamente, mas, sobretudo, minha responsabilidade perante grupos que necessitam ser apoiados. Pela primeira vez, pude me ver como agente apta a concretizar as diretrizes do Direito internacional, e aplicar preceitos teóricos na prática. A postura ativa dessa organização, inclusive, ficou evidente em ações tomadas durante a própria Covid-19, atreladas a campos como da saúde e apoio às famílias em situações de vulnerabilidade. Somado a esse aprendizado, foi também a partir de portas que a FGV me abriu e de ensinamentos que tive internamente em entidades como o CFGV[6], cursinho popular voltado ao ingresso de alunos de baixa renda no Ensino Superior), e a CJP-FGV[7], empresa júnior que presta serviços de consultoria para o primeiro setor e para o terceiro setor, que consegui internalizar uma ideia que ouvi de uma colega que vivenciou comigo momentos e lugares como os citados: “A melhor maneira de você prever o seu futuro é agindo em prol dele.”

Assim, buscando construir outras habilidades pessoais e profissionais para a minha trajetória, tomei a decisão de ingressar em um mundo até então desconhecido para mim, o universo das techs. Ingressei em uma das fintechs mais conhecidas no Brasil e na América Latina, a Creditas[8], ainda no auge da pandemia, e logo descobri como de fato estávamos ressignificando as nossas relações. Fui recebida integralmente na forma remota e, com essa experiência, pude observar as dificuldades e os benefícios que poderíamos extrair de um momento como esse.

Sentindo falta de ter um contato mais próximo com aqueles com quem compartilhava minha rotina dentro da área comercial, tive a oportunidade de ressignificar treinamentos internos a partir da ênfase que pude dar, junto com parceiros de time em soft skills, que são habilidades comportamentais relacionadas a maneira como o profissional lida com o outro e consigo mesmo em diferentes situações, e que hoje estão sendo valorizadas e estão cada vez mais estampadas em capas de diferentes meios de comunicação. Como consequência, tive como principal ganho um olhar mais atento sobre mim mesma e sobre pilares que, em razão de nossa rotina desenfreada, são deixados de lado, como a empatia, a criatividade, o cuidado e o foco no desenvolvimento. Este último, para mim, é o fator central para unir pessoas e times, despertando nestes aquilo que há de melhor dentro de cada um e gerando um universo que seja mais colaborativo.

Logo, no que tange à característica da colaboração, parafraseando Fabio Barbosa, diretor-presidente da Fundação Itaú e membro do conselho da AMBEV: “Hoje há menos espaço para heróis e mais espaço para colaboração ativa entre as empresas e a sociedade civil”. Ou seja, não devemos pensar que um indivíduo irá causar grandes feitos por si só, e sim, que é determinante sua atuação como parte da rede em que está inserido. Esta reflexão, inclusive, me permite traçar um paralelo com uma frase que ouvi de um ex-aluno da FGV, que atua na AMBEV: “a colaboração é parte daquilo que nos faz pensar além dos rótulos como Companhia”, e que carrego comigo desde que a ouvi em 2018 durante uma palestra ministrada por ele na Fundação.

Desse modo, permitindo que a pandemia trouxesse à tona compreensões tão diversas e intrínsecas às experiências que vivi ao longo deste período pandêmico, busco finalizar esta trajetória compartilhando uma das maiores conquistas que pude ter, qual seja minha (recente) aprovação no Programa de Trainee da Ambev, disputado por cerca de 300 mil pessoas anualmente. Isto porque, além de se tratar de um programa que busca desenvolver jovens talentos com o intuito de se tornem lideranças, a Companhia também estimula os aprovados – desde o início, a valorizarem e desenvolverem ações em prol de temas como diversidade, sustentabilidade, desenvolvimento de pessoas, dentre outros. Fato este que me faz crer que esta seja uma porta de entrada para ações que posso desempenhar em uma sociedade que está constantemente em mudança e que tem a necessidade de ser vista e ouvida, tanto do ponto de vista humano e como do ponto de vista de um consumidor. Mesmo porque, se não transformar os privilégios que recebi e que vivencio diariamente em recursos que possam se tornar alavancas de mudança, dificilmente serei uma pessoa que torna livre meus pensamentos, e facilmente serei uma daquelas que simplesmente circula pela multidão.

Notas

[1] EL PAIS. Coronavírus chega à Espanha. Disponível em: https://brasil.elpais.com/internacional/2020-02-25/catalunha-confirma-o-quinto-caso-de-coronavirus-registrado-na-espanha.html > Acesso em 07 de fevereiro de 2022.

[2] ESADE. Disponível em: https://www.esade.edu/en > Acesso em 07 de fevereiro de 2022.

[3] EAESP-FGV. Disponível em: https://eaesp.fgv.br/en > Acesso em 07 de fevereiro de 2022.

[4] Autoconhecimento: Contribuições de Pesquisas Básicas. SCIELO. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pe/a/77bVDSpqVHMdnBKKxdMR6MN/?format=pdf&lang=pt > Acesso em 07 de fevereiro de 2022.

[5] ICRC. Disponível em: https://www.icrc.org/pt > Acesso em 07 de fevereiro de 2022.

[6] Cursinho FGV. https://www.cursinhofgv.com/ > Acesso em 07 de fevereiro de 2022.

[7] CJP-FGV. Disponível em: https://jpfgv.com.br/ > Acesso em 07 de fevereiro 2022.

[8] Creditas. Disponível em: https://financeone.com.br/melhores-fintechs-brasileiras/ > Acesso em 07 de fevereiro de 2022.

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