Verdade, enigma e utopia

Verdade, enigma e utopia

REDAÇÃO

19 de junho de 2020 | 09h49

Valdemir Pires, professor de Finanças Públicas da Unesp e diretor da Escola de Governo da prefeitura de Araraquara.

 

Como distinguir entre verdade e mentira quando concepções e interesses conflitantes utilizam, nas disputas políticas e econômicas quotidianas, os fatos (atuais e históricos) do modo que lhes convém e não de acordo com um critério comum de verdade? Esta pergunta vai se tornando uma das mais inquietantes do século XXI, pois nele tem início a era das fake news, expressão inglesa para notícia falsa. Embora a desinformação, os boatos e as “falsas verdades” tenham longa tradição na antiga “imprensa marrom”, que as veiculava, o fenômeno da dúvida a respeito da verdade em relação a dados, informações, acontecimentos e notícias nunca foi tão ampla e profunda como diante das novas tecnologias da informação e da comunicação. Isso por dois motivos básicos: primeiro, a internet possibilitou o surgimento de uma profusão de difusores de informação, todos agindo por conta própria e de acordo com seus critérios (o que, de início soou como  democratização); segundo, a rede mundial  de computadores oferece a possibilidade de disseminação muito rápida das inserções, com alto potencial de  “viralização”. Paradoxalmente, as possibilidades tecnológicas atuais, de ampla, livre e rápida disseminação de notícias, que poderiam melhorar como nunca a comunicação e o entendimento entre os indivíduos e sociedades, são o alicerce para a viralização de fake news; diante da atual ação dos robôs, que disparam mentiras e disseminam preconceitos e ódio nas redes sociais, a baixo custo e sem qualquer tipo de controle, a antiga “imprensa marrom”, que ainda não desapareceu por completo, parece uma técnica rudimentar de esperteza demoníaca.

Sem entrar  na discussão filosófica do que é verdade, que remonta a séculos e permanece em ebulição, e sem adentrar o acalorado debate contemporâneo da Física (quântica e da relatividade), que, em última instância, podem até levar à dúvida sobre existirmos ou não, ou, pelo contrário, teorizar, com alguma consistência matemática, que há outras dimensões da nossa existência ou que podemos trafegar entre passado, presente e futuro, sem entrar nesses debates inacessíveis a leigos, é possível refletir sobre verdade e mentira num nível de compreensão mais acessível.

Primeiramente, o século XX consolidou a verdade jornalística: “Deu no New York Times”, então é verdade; “Foi assim que aconteceu, vi no Jornal Nacional de ontem”. Dos jornais ao rádio e deste à televisão, todo um caminho de construção de verdades coletivamente aceitas foi construído — o caminho do jornalismo. Por mais que se pudesse e se possa questionar os critérios de objetividade dos veículos de comunicação jornalística, eles repousavam sobre uma ética e sobre procedimentos editoriais que, de algum modo, ofereciam resistência à mentira, preservando a opinião pública de contágio, até certo ponto. Por exemplo: a pauta de um diário e das emissoras é (deve ser) objeto de reflexão e discussão entre os profissionais da comunicação (jornalistas, repórteres, âncoras, diretores de redação etc.); a investigação e a verificação de fontes e veracidade é a característica do bom jornalismo; dar espaço para opiniões divergentes, assim como  distinguir entre opinião e fato são exigências inarredáveis entre profissionais da notícia. Além disso, como os veículos de comunicação de massas disputam leitores e audiência, procuram ostentar uma imagem de responsabilidade e de lealdade com sua clientela, buscando, ademais, surpreender por meio de “furos”, ou seja, por meio de competência e sagacidade para descobrir o que está encoberto, antes que todos, pelo bem do grande público.

Pois a verdade jornalística está desaparecendo, juntamente com os jornais, dispendiosos demais diante das novas tecnologias da informação e da comunicação, e juntamente com as emissoras de rádio e TV. Esses meios de comunicação de massas, de mão única (sem possibilidade de interação com os leitores e audiência), tiveram que  migrar para formatos digitais. Mas, ao fazê-lo, passaram a concorrer com uma quantidade imensa e disforme de fontes individuais de difusão de informações. É sintomático que grandes jornalistas tenham passado a disputar atenção com adolescentes youtubers ou com diversos tipos de digital influencers. Ao mesmo tempo em que já não é possível imaginar, como antes, a ação e o peso do intelectual, se manifestando nas mídias e influenciando a opinião pública. Mesmo as “celebridades” estão, hoje, ainda que menos que os intelectuais, reduzidas a vozes de igual alcance em relação às demais. Todas essas fontes, por sua vez, sem a menor condição de concorrer com robôs, numa eventual guerra híbrida, em sua faceta de ciberguerra.

Quanto à verdade científica, esta tem sido o antídoto encontrado na tentativa de reduzir o impacto das tantas mentiras que hoje povoam as mentes individuais e o imaginário coletivo, cheios de medo devido às incertezas que rondam a existência humana neste período de transição de uma sociedade capitalista-industrial-mercantil-financeirizada para outra ainda não delineada. Mais do que a jornalística (facilmente vítima de interesses econômicos e políticos e do vírus da propaganda – verdade construída a partir de apelos emocionais), a verdade científica busca a objetividade (portanto, livre das influências de visões subjetivas), lastreando-se em métodos e protocolos consagrados pela comunidade de pesquisadores, alojados em instituições (universidades, centros de pesquisa) que são suas garantidoras. Garantidoras até certo ponto, também, haja vista toda a controvérsia sobre objetividade científica, no campo da filosofia das ciências e da própria metodologia científica, mormente quando se trata de ciências soft, como as humanas e sociais aplicadas. Mas ainda, assim, a verdade científica desponta com o último recurso em defesa da verdade, contra o avanço da mentira. A fala do “especialista” ainda é usada como credencial nos debates, como se contra a objetividade da ciência e da técnica nada pudesse se opor. Se “contra fatos não há argumentos”, fatos são os objetivamente demonstrados e provados pela ciência.

As próprias ciências, entretanto, padecem de um mal que costuma ser esquecido, nesse debate sobre verdade. Trata-se do seguinte: objetivo é tudo aquilo que foi separado do subjetivo, isolado das influências deste. Valores, opiniões, sentimentos, sensações, ou seja, tudo que varia de indivíduo para indivíduo, não pode ser considerado na busca da verdade científica; e este é o alicerce do método científico. Ora, é objetivo o fato que, portanto, isola o que em cada pessoa é sua maior verdade — seu modo de viver, sentir, decidir, agir, estar no mundo com os outros, enfim. Dessa forma, todos os conflitos, crises, inquietações, dilemas existenciais desaparecem, deixam de ser considerados… O que é o homem? de onde vem e para onde vai? o que é o bem, o belo, o justo? qual o sentido da vida e das coisas? o que devo fazer para ser feliz?: que objetividade científica é  possível para responder a tão devastadoras dúvidas? Há verdades que somente no campo da filosofia e das artes podem ser buscadas, sem a certeza de que venham a ser encontradas. Dessa busca, entretanto, a maioria abre mão. Chegar à limitada verdade científica já é muito.

Não é à toa que vive-se, hoje, o desconforto da convivência com um contingente enorme de pessoas que estão sendo chamadas de bárbaras, incivilizadas ou simplesmente estúpidas ou ignorantes, por acharem que a terra não é redonda, que o criacionismo deve ser  adotado em lugar do evolucionismo, que religião deve nortear decisões de governo, que assuntos como sexo e reprodução humana devem ser encarados sem levar em conta a diversidade e a autonomia individual de escolha etc.; pessoas que desprezam os avanços científicos e institucionais na organização democrática e republicana da vida coletiva, que dizem odiar filósofos, sociólogos, cientistas políticos, artistas, que são, enfim, os arautos do anti-intelectualismo que cresce assustadoramente, até  mesmo entre grupos compostos por indivíduos com educação formal avançada.

Enquanto as verdades jornalística e científica (conquistas do modernismo e da imprensa, sob  influência iluminista e contra a verdade teológica medieval) estão sob ataque cerrado, erodindo o edifício do humanismo, ganham espaço as  crenças religiosas e diversos tipos de pentecostalismo, conduzidos por líderes individualistas claramente beneficiados pelo financiamento de seus seguidores e visivelmente comprometidos com atores econômicos e políticos engajados na manutenção de privilégios que  custam,  quando não a vida, o  emprego e a dignidade  a milhões e milhões de pessoas. Nesta era pós-verdade, que alça pregadores religiosos sem lastro teológico e influenciadores instantâneos sem densidade cultural aos “píncaros da glória” e que faz da ignorância receptiva a eles a alavanca para a barbárie, urge retornar à Filosofia e à Arte como  fontes de entendimento do Humano, como enigma existencial e janela aberta à utopia.

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