VAMO, a Fortaleza que se move

VAMO, a Fortaleza que se move

REDAÇÃO

28 de março de 2022 | 18h10

Maria Carolina Ribeiro Villar, Graduanda em Administração Pública (FGV-EAESP)

Maria Massari Venticinque, Graduanda em Administração Pública (FGV-EAESP)

A mobilidade urbana representa um dos maiores problemas atuais da gestão das grandes cidades. Uma cidade desenvolvida e moderna deve ter como preocupação a mobilidade urbana, visando à gestão melhor dos deslocamentos, a multifunção das ruas e, nesse sentido, a melhora na qualidade do ar e o cuidado com o meio ambiente. Isto porque, a quantidade de automóveis individuais na rua e a poluição são alguns dos principais problemas derivados da configuração atual da mobilidade nas grandes cidades.

Como forma de modernizar a mobilidade urbana e reduzir seus impactos na sociedade e no meio ambiente, diversas metrópoles começaram a pensar em possíveis mudanças e programas. Um desses projetos são programas de compartilhamento de veículos elétricos. O primeiro programa de carsharing, chamado Autolib, foi criado em Paris, 2011, servindo como forma de melhora para o deslocamento urbano, qualidade do ar e poluição sonora.

​​O município de Fortaleza, a sétima maior capital de Estado do país, conta com um crescimento da frota de veículos automotores de 60,9%, entre 2010 e 2020 (Denatran). Todo este crescimento e o histórico de construção da cidade, com ruas estreitas e problemas com transportes públicos, fez com que Fortaleza se tornasse uma capital com destaques em ações de mobilidade, como a expansão da malha cicloviária, o aumento de disponibilidade do transporte público, e a melhoria da segurança viária, além de outras ações inovadoras.

No Brasil, o projeto Veículos Alternativos para Mobilidade (VAMO), programa da Prefeitura Municipal de Fortaleza, é pioneiro. Este programa consiste na implantação de um sistema público de carros elétricos compartilhados e tem como principais benefícios: i) o incentivo a energias limpas e renováveis; ii) a promoção do consumo colaborativo e compartilhado e iii) aumento da mobilidade urbana na capital cearense.

O VAMO é coordenado pela Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), por intermédio do Plano de Ações Imediatas de Transporte e Trânsito (PAITT), e teve início em julho de 2016. O seu principal objetivo é ser mais uma alternativa de transporte, locomoção e mobilidade urbana sustentável para a população de Fortaleza.

Atualmente, segundo o Canal Mobilidade da Prefeitura de Fortaleza[1], o programa conta com vinte carros elétricos compartilhados, nos modelos “BYD e6” e “Zhidou EEC L7e-80”, os quais são veículos integralmente elétricos. O sistema possui 4.239 veículos cadastrados e já proporcionou cerca de cinco mil deslocamentos, totalizando percursos acima de 120 mil quilômetros. Ainda de acordo com o Canal, caso tais deslocamentos tivessem se dado através de automóveis movidos a combustível, teriam sido emitidas 6,1 toneladas de gás carbônico (CO2) na atmosfera.

Desde a sua implementação inicial, o projeto passou pelas fases de piloto, demonstração itinerante dos veículos e operação assistida. Ao longo desse processo, foi possível proporcionar uma atenção adequada para os usuários, entendendo suas demandas e capacitando-os quanto ao aspecto operacional do programa, dado que há um alto grau de complexidade envolvido, visto que trata-se de um sistema pioneiro no país. Um ponto fundamental passível de análise para compreender a viabilidade do projeto é o fato de que a Prefeitura não precisou arcar com os custos referentes à aquisição e manutenção dos veículos, pois a empresa Serttel é quem implanta, opera e faz a manutenção ao sistema de carros elétricos compartilhados, e a empresa Hapvida Saúde é a patrocinadora do VAMO.

Sendo assim, o projeto VAMO impacta economicamente a vida dos usuários, uma vez que evita a necessidade de aquisição e manutenção de um carro próprio; promove e favorece a mobilidade urbana pois fornece ao cidadão mais uma possibilidade de meio de transporte e contribui para a sustentabilidade dado que os carros são 100% elétricos, diminuindo a emissão de gases poluentes na atmosfera. Para usufruir do programa, os usuários precisam realizar um cadastro através do site com as informações necessárias, como Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e comprovante de endereço.

No que diz respeito ao preço pago pelos usuários para utilizarem os carros, a prefeitura reduziu logo em 2017 cerca de 70% das tarifas para uso dos veículos. Tal redução foi feita com o intuito de incentivar a população a aderir cada vez mais a este novo modelo de mobilidade urbana sustentável. Atualmente, o preço da tarifa é R$ 20,00 para quem não possui bilhete único e R$ 15,00 para aqueles que possuem o bilhete, valores referentes aos primeiros trinta minutos de uso. O valor da tarifa aumenta proporcionalmente ao tempo de uso, podendo chegar a R$ 131,00 para sete horas de uso.

É possível analisar o programa VAMO à luz da literatura presente no estudo publicado na forma de artigo na The Lancet em 2016 (“City planning and population health: a global challenge” da série “Urban design, transport, and health”), que discorre a respeito das mudanças climáticas globais que vêm acontecendo durante o século XXI, concluindo que a chave para solucionar o problema climático é o planejamento urbano. Nesse mesmo estudo é abordado como o planejamento urbano feito através dos meios de transporte pode causar impactos relacionados à saúde da população de determinada cidade.

Dessa forma, o estudo conclui que a fim de conquistar cidades mais sustentáveis, com maior mobilidade urbana e que promovam qualidade de vida para a população, é preciso integração regional, planejamento local e o desenho local da cidade. Para promover a integração regional, faz-se necessário que o sistema de transporte leve em consideração a acessibilidade do destino, a distribuição de funcionários e o gerenciamento de demandas. E, a promoção do planejamento urbano local demanda uma análise da distribuição e densidade urbanas, assim como da distância para transitar, diversidade e a desejabilidade daquele sistema.

Nesse sentido, ao observar o projeto VAMO de Fortaleza constata-se sua coerência com os requisitos necessários para a construção de cidades mais sustentáveis e que representem uma maior qualidade de vida e mobilidade urbana para a população. O VAMO, ao fornecer um sistema público de carros elétricos compartilhados, atua em favor da conservação ambiental, uma vez que, como mencionado anteriormente, evita a emissão de gases poluentes e, também, fomenta a mobilidade urbana, ao oferecer mais uma alternativa de locomoção para os cidadãos.

O projeto, ao longo das fases piloto, demonstração itinerante dos veículos e operação assistida, trabalhou a partir das demandas dos usuários, algo fundamental para um sistema de qualidade, conforme aponta o estudo analisado.

Não obstante, outra característica presente tanto na formulação do programa quanto em sua implementação é a integração urbana e metropolitana. Isso se deve ao fato que o sistema de veículos é integrado aos demais modais de transporte, propiciando uma maior acessibilidade dos usuários e maior facilidade em transitar pela cidade. Portanto, o projeto VAMO, pioneiro no país, contribui para a construção de uma Fortaleza mais sustentável e para o aumento da qualidade de vida da população.

Isto posto, cabe uma análise crítica do projeto, a fim de identificar potenciais melhorias e pontuar recomendações aos gestores do VAMO. O programa tem como objetivo fomentar o desenvolvimento sustentável, a melhor circulação urbana e a redução de custos ambientais, econômicos e sociais. Apesar de ser muito promissor, enfrenta alguns obstáculos, uma vez que o compartilhamento de veículos elétricos exige uma infraestrutura eficiente de recarga e aluguel, incentivos federais para a indústria e, também, acessibilidade do público-alvo.

O AutoLib, programa implementado em Paris, é uma experiência bem-sucedida de compartilhamento de veículos elétricos. Este obteve muito sucesso devido ao grande apoio e investimento tanto do setor privado como do público, além de ter sido implementado de forma extremamente acessível, facilitando o uso dos carros pela população. Todo este investimento e sucesso são derivados das diversas estações de aluguel pela cidade e seus postos de recargas. O programa parisiense obteve resultados assertivos e proveitosos, entre eles, a liberação de vagas em estacionamentos e na rua, criação de novos empregos e negócios, bem como a redução das emissões de CO2.

Embora os programas brasileiros tenham sido exitosos, são mais modestos que o parisiense, tendo menor abrangência e efeito. Em contrapartida, no que se refere aos resultados qualitativos, o VAMO assemelha-se muito ao modelo francês, especialmente em relação à estrutura. Por outro lado, há uma carência de dados quantitativos acerca de seus efeitos no meio ambiente e na economia local. Por tal razão, recomenda-se a periódica avaliação dos impactos do programa para se medir sua efetividade. Ao longo da etapa de avaliação de impacto, seriam aferidas as demandas dos usuários, como, por exemplo, os locais de embarque e desembarque mais procurados, os pontos de recarga mais usados e onde poderiam ser adicionados novos pontos. Todos esses dados facilitariam a ampliação e eficiência do programa.

Ademais, para que o programa seja ainda mais difundido, como o AutoLib de Paris, é imprescindível investir em locais para recarga ao longo da cidade, ampliando a acessibilidade ao programa e consolidando essa alternativa inovadora de mobilidade urbana e a melhoria da qualidade ambiental na cidade de Fortaleza.

Nota

[1] Disponível em: https://mobilidade.fortaleza.ce.gov.br/menu-programas/programa-ii.html Acesso em: 18 out. 2021.

Referências

GILES-CORTI,B. et. al. City planning and population health: a global challenge. The Lancet, v.388, dec. 2016, p. 2912-24.

PASCOAL, Erik Telles. Um panorama dos modelos de compartilhamento de veículos elétricos em cidades brasileiras. Disponível em:

. Acesso em: 18/10/2021

PAULINO, Nicolas. Como a mobilidade de Fortaleza mudou na última década. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/metro/como-a-mobilidade-de-fortaleza-mudou-na-ultima-decada-1.2993417. Acesso em: 18 out. 2021.

Prefeitura de Fortaleza (org.). VAMO Fortaleza. Disponível em: http://www.vamofortaleza.com/#comofunciona. Acesso em: 18 out. 2021.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.