Uma lenda chamada meritocracia no contexto feminino brasileiro

Uma lenda chamada meritocracia no contexto feminino brasileiro

REDAÇÃO

24 de março de 2022 | 21h55

Ingrid Graziele Reis do Nascimento, Doutora em Engenharia do Território pela Instituto Superior Técnico de Lisboa

Era uma vez um país cheio de discursos bonitos, entusiastas, onde tudo é possível para aqueles que se esforçam e buscam um lugar ao sol. O que seria de uma estória se não começasse com um era uma vez. Pena que a realidade é um cenário bem diferente. Um país com tanto sexismo, machismo e racismo, falar sobre conquistas por mérito através de esforço, chega a ser um atentado à inteligência.

A suavidade, ou mesmo a subliminaridade dos discursos, esconde uma história de patriarcado com nuances excludentes bem determinadas, que vêm sendo perpetuada ao longo do tempo. Não teria como discorrer sobre esse tema sem mencionar a figura feminina. Apesar de tanta evolução, existem episódios que são reprisados diariamente. E querem saber, é tão natural como o amanhecer.

O destaque feminino acontece, mas acreditem, por trás daquele brilho existe uma mulher cheia de “gases” provenientes de tanta coisa que ela tem que engolir, e que nem sempre pode retribuir na mesma intensidade e velocidade.  E não adianta, somos várias partilhando de histórias semelhantes. Memoráveis “damas de ferro” geralmente são mulheres que trabalham horas afinco e não romantizam a vida, elas encaram com pragmatismo e competência os desafios que elas escolhem ultrapassar.

Por exemplo, Gabrielle Chanel, vulgo Coco Chanel, ocupou e ainda ocupa um posto ímpar no cenário da moda, ela é fundadora da marca Chanel S.A. É a única que faz presença na lista das cem pessoas mais importantes da história do século XX da revista Time. Trabalhava mais de nove horas e, além da perfeição, encarava a moda não como arte, mas sim como um negócio.

No contexto Brasil, temos uma presidenta que não agradou muito, pois não fazia nada para atender às apelações do mundo masculino, das roupas ou das exigências da beleza padrão. Afinal, deve ser difícil para um governo majoritariamente masculino ter que lidar com uma mulher que pensa por si só e ainda tinha firmeza nas suas decisões.

Mas, não posso deixar de fazer um adendo, a presença da misoginia até mesmo advindo das próprias mulheres. Esse é mais preocupante, e cabe de fato uma reflexão sobre como ressignificar e como buscar mais empatia. No outro extremo das damas de ferro temos a figura feminina excêntrica e que simplesmente vive. No Brasil, as cantoras de funk, por exemplo, usam e abusam da sensualidade para ganhar protagonismo e quebrar padrões.  É difícil aceitar o sucesso alheio, incomoda e causa espanto.

Acredito na evolução e na revolução, mas, sou cética no que tange à mudança de comportamento sem reflexão. É necessário refletir antes de falar ou mesmo de tomar atitudes. O Brasil está longe do slogan “mundo igual para todos”, e um passo importante rumo à mudança de rotas é encarar essa realidade, isso seria fundamental.

Detalhe, não é fácil mudar uma cultura reproduzida por séculos. No entanto, um pensamento e uma ação materializada já significam um novo resultado de impacto significativo e de alcance com proporções relevantes e que ecoam além das gerações.

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