Uma estrada com algumas saídas: quo vadis, Brasil?

REDAÇÃO

24 de agosto de 2018 | 08h39

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado UFBA. Em pós doutoramento na FGV-EAESP.

Pouco mais de 40 dias e as eleições baterão à porta. O pleito presidencial parece o mais imprevisível dos últimos anos, ficando até difícil cravar, com segurança, os dois que irão para o 2.o turno. Parece possível visualizar um embolamento entre cinco candidaturas viáveis de vitória (salvo alguma grande surpresa ainda não detectável): Alckmin, Bolsonaro, Ciro, Haddad e Marina, a se verificar desde que Alckmin e Haddad consigam melhor seus índices de votos. Para o primeiro por conta da ampla coligação formada, pelo tempo de TV e pelo seu histórico na política; para o segundo pela propalada transferência de votos de Lula para seu nome. Por sua vez, Ciro e Marina parecem ter um público cativo que resulta de sua inserção em eleições passadas onde foram concorrentes com peso apreciável além de serem beneficiários também da transferência de votos de Lula. Bolsonaro representa um conjunto de ideias de parte da sociedade brasileira que encontra, agora, alguém para vocalizá-las.

A campanha política pode ser dividida em três fases: a pré-campanha, quando as candidaturas ainda estavam sendo definidas, a fase oficial da campanha, a atual, com os candidatos definidos, realização de debates e, uma terceira fase, a da propaganda política nos meios tradicionais de comunicação. Nestas duas fases é onde a campanha propriamente dita esquenta, onde existem mais confrontos e as posições dos candidatos chegam mais perto e de forma mais clara aos eleitores e estes se mobilizam mais. O crescimento dos candidatos se dá em cima dos indecisos e até dos votos em branco, além da canibalização de um candidato por outros.

Muita coisa estabelecida agora poderá mudar nesta 2.a e na 3.a fase da campanha. Mas, ao que tudo indica, Bolsonaro poderá reduzir seu percentual de votos, devido o seu reduzido tempo de mídia, da sua alta taxa de rejeição além de ser o candidato preferencial a ser atacado de quase todos os outros. Ciro e Marina devem experimentar um crescimento por conta de ideias que embasam suas candidaturas que fogem mais aos cânones tradicionais além, como dito, da migração de votos lulistas.

As respostas que darão as candidaturas de Alckmin e Haddad, porém, ainda são enigmas. Muitos analistas trabalham com a hipótese da reedição da polarização presente nas últimas duas décadas, entre PT e PSDB, partidos que mostrariam força e colocariam seus postulantes no 2.o turno. Esta polarização se fundamenta fortemente na continuidade do passado. A esse respeito vale lembrar que na eleição de 1989, uma polarização estabelecida, PMDB x PDS, desapareceu, derreteu. Assim, polarizações estabelecidas não duram para sempre. A dúvida é se a transferência de votos de Lula será capaz de viabilizar Haddad. O PSDB, por sua vez, depende da capacidade de Alckmin de se mostrar viável e competitivo correndo o risco de sofrer uma cristianização. A esse respeito vale lembrar que na eleição de 1950, Cristiano Machado, de onde se origina a expressão, teve 21,5% dos votos, ficando em 3.o lugar, em uma eleição com três candidatos competitivos. Mas Alckmin teria que sofrer uma cristianização profunda para não ficar no meio de campo dos pleiteantes ao 2.o turno.

Partindo do principio de que Haddad e Alckmin superem razoavelmente suas dificuldades teríamos então um meio de campo povoado por cinco candidaturas (ou talvez quatro, caso um desses dois candidatos não alcance sua meta) onde os percentuais de voto devem oscilar entre 13 a 17%, com fugas pequenas para cima e para baixo. E onde as diferenças entre os candidatos podem ser mínimas, na casa decimal. Lembrar que na eleição de 1989, a diferença entre Lula e Brizola foi de menos de 1%. Assim, seria possível visualizar 10 combinações entre esses cinco candidatos para definir os dois habilitados para ir ao segundo turno. Se as diferenças forem pequenas, não deve ter tanto peso assim estar em primeiro ou segundo lugar findo o 1.o turno. De qualquer forma, parece que a eleição será definida mesmo no photochart, com diferença mínima entre os dois pleiteantes. Então, os cinco caminhos possíveis se reduzem para dois. Mas a questão que fica é: quo vadis, Brasil?

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