Uma aproximação ao empreendedorismo imigrante brasileiro em Toronto/Canadá

Uma aproximação ao empreendedorismo imigrante brasileiro em Toronto/Canadá

REDAÇÃO

21 de outubro de 2020 | 13h55

Michel Mott Machado, pós-doutor em Business and Society pela York University e docente do Programa de Mestrado em Gestão e Desenvolvimento da Educação Profissional, Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza

 

Em várias partes do mundo, o debate sobre a imigração tem se tornado cada vez mais relevante e presente. Como exemplos de assuntos de destaque, pode-se citar a grande movimentação de refugiados rumo a Europa, assim como o polêmico – para dizer o mínimo – posicionamento do então candidato e agora (pelo menos até este o momento) presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, dando ênfase à “questão mexicana”.

De fato, apesar dos movimentos migratórios não se configurarem como um fenômeno novo, nota-se que a discussão das consequências para os países anfitriões tem se tornado intensa ao longo dos anos, e nesta trilha, estudos acadêmicos têm apontado, entre outros aspectos, para os impactos demográficos, sociais e econômicos desses grandes fluxos migratórios. No Brasil, por exemplo, além de questões relativas à imigração boliviana, haitiana e venezuelana despertarem interesse, é de notar-se, também, um movimento de intensificação da emigração de brasileiros, sendo o Canadá um dos destinos importantes.

Ao considerar-se o contexto dos fluxos migratórios internacionais, vários estudiosos têm apontado para o empreendedorismo como uma das formas de ascensão econômica do imigrante, bem como de grupos étnicos minoritários. No caso do Canadá, particularmente, há um entendimento de que para certos grupos de imigrantes, o empreendedorismo tem se mostrado um importante meio de avanço econômico.

Assim, na interface entre a imigração e o empreendedorismo, e considerando-se o recente e rápido crescimento da população brasileira imigrante no Canadá, assim como a ampla lacuna de conhecimento sobre suas atividades e características empreendedoras, este escriba decidiu realizar – entre julho de 2019 e julho de 2020 – a pesquisa de pós-doutorado intitulada “Brazilian Immigrant Entrepreneurship in Toronto/CAN”, a qual contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Do segundo semestre de 2019 até agora, como se sabe, muitas coisas estão a acontecer, algumas delas graves e doloridas, como a pandemia da COVID-19. Porém, o trabalho de pesquisa não foi paralisado, sendo que de lá para cá, trabalhamos para chegar a alguns achados e conclusões. Assim, de maneira mais coloquial e menos acadêmica, eu gostaria de compartilhar um pouco sobre o que eu aprendi com esses/as empreendedores/as imigrantes brasileiros/as. Para tal, eu destacaria quatro desafios que eles/as podem vir a enfrentar no contexto canadiano, além de apontar o que eles/as têm feito para aumentar as chances de sobrevivência e de evolução dos seus negócios.

O primeiro desafio, tem a ver com o que se poderia chamar de “adaptação cultural”, também interpretado como “necessidade de entender o outro”, inclusive do ponto de vista do “how to do business in Canada”. Aqui, para além do aspecto linguístico, em si – o que aliás, é relevante –, pode haver outros elementos a serem considerados, como ter que lidar, por exemplo, com um contexto sociocultural de menor ambiguidade, com a maneira de dispor do tempo, com uma comunicação mais direta, entre outros aspectos.

Outro aspecto que pode ser considerado como absolutamente relevante, é o que se pode chamar de “rede de relacionamento/networking”, ou em outros termos, o capital social. A ideia de “networking”, nesse contexto, tem a ver basicamente com a busca de acesso a potenciais clientes e a recursos organizacionais, principalmente o recurso “informação”, tido como fundamental em qualquer fase do negócio.

A lacuna relativa à chamada ‘Canadian experience’, também interpretada como falta de histórico no Canadá, é outro desafio que se pode esperar, especialmente para os/as newcomers. A esse aspecto, aliás, pode-se atribuir alguns outros possíveis desafios, tais como acesso ao mercado de trabalho e ao crédito bancário, aluguel para fins comerciais ou mesmo de moradia, entre outros.

Um outro desafio que se pode destacar, tem a ver com a questão do “profissionalismo”, compreendido aqui como um conjunto de qualidades características dos bons profissionais (por ex.: seriedade, responsabilidade, pontualidade, diligência, presteza, eficiência, praticidade etc.). Novamente, trata-se de perceber e de adaptar-se ao que é valorizado no contexto social-cultural e profissional do país anfitrião, principalmente quando se está a focalizar o mercado mainstream.

Ao lado desses e de outros desafios, o que os/as empreendedores/as imigrantes brasileiros/as têm feito para ampliar as chances de evolução dos seus negócios? Ou seja, o que podemos aprender a partir da experiência desses empreendedores e dessas empreendedoras? Uma das principais ações vai na direção de ampliar as redes de relacionamentos (capital social), no caso, para além da própria comunidade étnica, porém sem excluí-la. Outro movimento está voltado a desenvolver/fortalecer a “inteligência cultural”, inclusive no que se refere ao “how to do business”, no Canadá. Também, nota-se o esforço para adaptar o produto e/ou serviço com vistas a alcançar um público mais amplo, ou seja, para além do nicho/enclave étnico. Por último, mas não menos importante, percebe-se o empenho para ampliar o nível de educação (formal, não-formal e informal), com vistas a aprimorar a capacidade gerencial dos negócios.

Infelizmente ainda não é possível adiantar muitos dos resultados e das conclusões da pesquisa realizada, pois várias publicações nacionais e internacionais se encontram em rigorosa avaliação por pares. Portanto, tão logo seja possível, serão trazidas novas contribuições sobre o assunto em questão.

 

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