Um Presidente de brincadeira

Um Presidente de brincadeira

REDAÇÃO

07 de janeiro de 2021 | 22h06

José Antonio G. de Pinho, é professor Titular Aposentado – Escola de Administração UFBA; Pesquisador FGV –EAESP.

 

Analistas da Academia e da Mídia fazem algumas perguntas que parecem não ter respostas. Uma recorrente é a seguinte: quantas mortes pela Covid 19 serão necessárias para o Presidente Jair Bolsonaro tomar medidas efetivas de combate à pandemia? Perto de 200 mil óbitos, não há dúvida que o presidente não se sensibiliza com esse triste número. Muito pelo contrário, quando pode faz galhofa com essa situação, reforçando sua posição negacionista e sem qualquer compromisso com a vida humana. É um homem que não defende a vida, parece um emissário da morte, aferrando-se a posições anticientíficas, fazendo defesa, irresponsavelmente, do que não tem comprovação científica, minimizando a dimensão da doença.  Sua inércia é acompanhada pelo ocupante do Ministério da Saúde, um estranho no ninho, sem conhecimento da pasta, que obedece às ordens do chefe, colocando-se em um papel subalterno, que atinge não só a sua figura, mas as Armas. A História cobrará a conta aos responsáveis. 

O que Bolsonaro faz e pode fazer para retardar a vacinação, ele o fará, ainda que isso cause, como causará, mais mortes. Lembrar que rifou dois verdadeiros ministros da Saúde que não rezavam no seu obscuro livro. Sua ignorância e negação da realidade estão acima de qualquer coisa. É incrível que o presidente assuma essas posições sem qualquer rubor na face, o rubor que ostenta se refere ao sol tomado em 17 dias de férias, amenizado por mergulhos no mar em direção a apoiadores surpreendentemente agrupados à sua espera. 

Também chama atenção o fato de articulistas clamarem ao presidente que deve direcionar seus esforços para as áreas de educação, saúde e geração de empregos para impulsionar o país para o crescimento econômico e social. Novamente, também não se aplica esse tipo de sugestão ao presidente, pois parece que seu desígnio não é governar, não é presidir, revela-se um caso patológico. Lembrar que Bolsonaro foi eleito com três plataformas básicas: a dos costumes e ataques às liberdades individuais e de grupos, um suposto projeto de combate à corrupção e a expectativa de um crescimento econômico milagroso. A primeira tem sido repelida pela sociedade por seu conteúdo antidemocrático, de ataque às instituições, mais frequente em seu primeiro ano de mandato quando confrontou o STF, o Congresso, entre outras; a segunda evidentemente era uma farsa, pois a corrupção, se constata, estava já no ambiente familiar; o fracasso da terceira é agora atestada pelo maior adversário do governo, o próprio presidente, dizendo que o país está “quebrado e que não pode fazer nada”, assumindo sua inépcia e incompetência. O presidente é, por definição do cargo, aquele que sempre deve buscar, com equilíbrio, soluções para os problemas, respostas efetivas para estes. Volta e meia o presidente se queixa que só chegam problemas para ele, mostrando que ele não tem consciência mesmo das suas responsabilidades e da liturgia do cargo. 

As coisas sendo assim, o que esperar do presidente? Qual seu projeto para 21 e 22? Dado este repertório, as expectativas são reduzidas. No entanto, por incrível que pareça, o presidente almeja a reeleição e vem trabalhando nesse projeto desde o começo de seu mandato. Agora a eleição para a presidência da Câmara assume a aura de salvação de seu mandato, dado ter o presidente desta Casa a prerrogativa de pautar ações de impeachment que se avolumarão nos próximos meses, com certeza. Juntando-se ao Centrão, o que dizia abominar, confia nessa articulação para salvar o seu mandato e de sua prole e tentar a reeleição. Como alguém que sempre transitou próximo a este agrupamento, o presidente também deve saber que estes políticos e partidos fazem permanentemente um cálculo de viabilidade de seus investimentos e apostas políticas. Em outras palavras, se tiverem que abandonar o aliado de conveniência, o farão.  Até para quem mapeia bem as estratégias de Bolsonaro sabe que em alguns lances ele vai longe demais, mostrando como é forte o seu descolamento da realidade, ainda que conheça como poucos a vida intestina da Câmara Federal e da política do bas fond em geral. 

As perspectivas na área econômica, social e política não são nada otimistas. É um momento que seria necessário um estadista, figurino que não cabe no atual ocupante do Palácio do Planalto. O presidente faz de tudo isso uma brincadeira, brincadeira de mau gosto. Foge de suas responsabilidades e procura sempre um inimigo, ainda que imaginário, para esconder e justificar sua enorme incompetência. Voltando a pergunta formulada acima, o que esperar de Jair Bolsonaro em 2021 e 22? Neste ano, como dito, o primeiro lance do jogo político é a eleição do presidente da Câmara. Uma derrota sua não significa o fim de seu projeto, pois, certamente irá conversar com o eleito em busca de governabilidade, pagando o preço a ser pedido. A “flexibilidade” deste incentivará abertura de negociações. Em grande parte o presente ano vai depender certamente dos resultados da vacinação. A busca de um ambiente de caos será uma fixação para o mandatário para alimentar seus propósitos de quebra da ordem democrática, até agora afastados. Para 2022, ano do bicentenário da Independência, a pedra já está cantada, com sua recorrente crítica ao voto digital, agora reforçada com a tentativa de golpe nos Estados Unidos, por parte do seu ídolo. Isso só reforça a necessidade de ações fortes da sociedade civil organizada, das instituições democráticas, dos partidos políticos, da mídia e das Forças Armadas para combater insanidades e deixar claro que a Presidência não é um local de brincadeiras. 

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