Um olhar sociológico sobre as eleições municipais

Um olhar sociológico sobre as eleições municipais

REDAÇÃO

24 de novembro de 2020 | 14h19

Ruben Cesar Keinert, Professor Titular Aposentado da FGV EAESP.

 

Para além dos erros e acertos de estratégias usadas pelos partidos, houve dois movimentos profundos nas águas deste rio que passou em nossas vidas no domingo, 15/11 e que se expressam no bom desempenho do PSOL e na fraca performance do PT, em São Paulo.  O primeiro movimento é tão conhecido quanto esquecido: a cidade de São Paulo deixou de ser pautada pelo emprego industrial há algum tempo. O emprego com carteira assinada e todos os direitos decorrentes foi escasseando relativamente e deixando de ser o balizador do presente e do futuro da maioria da população.

Foram gerações e gerações em que irmãos menores, primos, filhos e amigos dos que tinham conseguido um emprego na fábrica incorporavam a mesma pretensão. E para conseguir era preciso estudar, “ser boa pessoa”, ter boa imagem, não ter passagem pela polícia; ser trabalhador e não “vagabundo”. Com a legislação trabalhista se encorpando e passando a ser referência para o acesso ao sistema de saúde, ao 13º, ao vale-transporte, ao vale-refeição, benefícios por produtividade e a outros quesitos, o conjunto de condições favoráveis passou para todo o setor de trabalho moderno (com as exceções e desvios de praxe). E alcançou a maneira como os moradores da cidade viam-se a si próprios e como os de fora os viam. Um “ethos” de trabalho foi criado e deu início a uma configuração cultural, uma tradição de estudos que tem como nomes conhecidos Ruth Benedict, Margareth Mead e Ralph Linton: a uma comunidade do trabalho passou a corresponder uma personalidade básica, predominante, a do cidadão trabalhador. Essa configuração deu a pauta para a reprodução da vida na urbe paulistana. (Só para lembrar: mais ou menos ao mesmo tempo, o Rio de Janeiro era a cidade da “malandragem”, dos “espertos”, pedindo licença a Roberto da Matta; Salvador, a cidade da boa vida).

O recente encolhimento do trabalho industrial – por extensão, trabalho com direitos – e/ou a sua precarização foi mudando o relacionamento das pessoas, famílias e bairros com os modos de sobrevivência disponíveis (“vou encarar um trampo ou morar com a minha avó e fazer uma coisinha aqui e outra ali?”) e com projetos de futuro (“vamos levando, depois a gente vê!”). Os que davam exemplo para os seus círculos familiares e de amizades foram se tornando desempregados crônicos, velhos e jovens desalentados ou… empreendedores individuais, sem condições de manter o padrão de vida anterior, com rendimentos baixos e variáveis, e com oscilações consideráveis.

Esse encolhimento do trabalho alcançou aos poucos a classe média da pirâmide ocupacional, cujas habilidades profissionais foram sendo absorvidas pelos softwares, aplicativos e pela inteligência artificial. De modo geral, vale a lei de que os últimos a entrar são os primeiros a sair, o que alcança os mais jovens prioritariamente. E, nesse caso, jovens de todos os bairros.

Paralelamente aconteceu algo inusitado, o segundo movimento a que me referi no início. A periferia – um subproduto da urbanização de São Paulo desde o seu início e que foi tomando força a partir da implantação do Planos de avenidas, marginais e radiais dos prefeitos Prestes Maia e Faria Lima e ganhou vigor a cada momento da expansão imobiliária nos últimos 50 anos – que era um local de desterro, longínquo, sem serviços e sem segurança, foi deixando de se ver assim. “Ser perifa” passou a ser um mote de orgulho e identidade que brotou de uma, por assim dizer, nova narrativa construída pela obra de músicos, escritores e poetas moradores das “quebradas”.

Em comum, entre as obras, a referência ao cotidiano dos moradores dos bairros distantes como um modo de vida compartilhado por toda uma “galera”, modos de nascer, ser educado nos termos daquele contexto, namorar, sonhar, ganhar a vida, enfrentar vicissitudes em ambientes hostis, escapar de abordagens policiais e de balas perdidas, quem sabe “ir em cana” e, com sorte, continuar vivo. Ou viva, porque as mulheres são presenças marcantes e compartilham tudo isso à sua maneira. E são narrativas sem enfeite, teias de histórias de quem vive essa “parada”, a da exclusão, segregação, violência e invisibilidade.

O inesperado foi o cruzamento das vivências dessa situação dos jovens da periferia com a situação de vida dos jovens desempregados e desalentados da classe média contagiados seja pela dramaticidade e resiliência dos seus pares excluídos de fato. Houve uma aproximação por constrangimentos pessoais comuns, um certo mal-estar de geração.

Guilherme Boulos veio personificar essa nova configuração/conjugação de uma nova personalidade básica, a dos que perderam a expectativa de tranquilidade material como desfrutaram seus pais e sabem que a vida tem que ser enfrentada passo a passo, com uma nova comunidade que não lhes garante direitos e, pelo contrário, lhes ameaça com a depreciação do que foi conquistado como patrimônio social.

O PT, Partido dos Trabalhadores, foi estruturado no quadro da antiga configuração cultural e tinha e tem como seus pilares os trabalhadores industriais, do comércio e da prestação dos serviços públicos, com seus sindicatos, federações, confederações e centrais nacionais. Luisa Erundina e Marta Suplicy governaram para a periferia em seus respectivos mandatos, mas o corpo do partido ressentiu-se com isso e as duas afastaram-se posteriormente da agremiação. O resultado é que o partido tem dificuldades para fazer a ampliação de votos para compor a maioria.

Estudos sistemáticos devem mostrar (e matizar) com mais clareza e consistência o que apontei aqui como elementos sociológicos de importância para se entender o processo político das grandes cidades industriais brasileiras, que se expressou nas eleições municipais de 15/11/2020.

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