Um olhar cauteloso e empático sobre a saúde mental 

Um olhar cauteloso e empático sobre a saúde mental 

REDAÇÃO

04 de julho de 2022 | 22h05

Nathália Araújo Vieira Bruni, Graduada em Administração Pública pela FGV-EAESP

Falar sobre saúde é falar sobre algo que, muitas vezes, pode ser delicado. Agora, falar sobre saúde mental é unir a delicadeza com outros dois pilares: empatia e cautela, respectivamente. Isso porque, enquanto a primeira diz respeito à tentativa de alguém compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar o que sente outro indivíduo, a segunda destaca a necessidade de agir com prudência sobre algo, e neste caso, sobre o primeiro pilar.

Isso posto, vale destacar que, quando pensamos em saúde mental – ou a ausência desta – no ambiente corporativo, segundo dados da OMS, os transtornos mentais e comportamentais estão entre as principais causas de perdas de dias de trabalho no mundo. Ademais, mais de 300 milhões de pessoas sofrem ao redor do mundo com a depressão, sendo esta a principal causa de incapacidade laboral e outras 260 milhões vivem com transtornos de ansiedade[1].

Não obstante, se considerarmos os diferentes contextos em que estamos inseridos em nossas rotinas, é importante observar que – tal como destacado pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, “todos conhecemos alguém afetado por transtornos mentais e este fato por si só ​​poderia ser convincente para a mudança”. O que nos coloca diretamente com o pilar da empatia desenvolvido no primeiro parágrafo deste artigo nos instiga, como pessoas físicas e jurídicas, a compreender a dor do outro para tentar amenizá-la e tornar o processo de outrem, mais leve.

Desse modo, buscando compreender a raiz de termos tantas pessoas enfrentando situações delicadas como as expostas acima, destaca-se que tais distúrbios são caracterizados pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes – seja na esfera pública ou na esfera privada – e, independentemente da idade que a pessoa tiver, fazem com que a pessoa esteja refém da situação que se encontra, não suportando conviver com tamanha pressão física, emocional e psicológica[2].

Assim, vale retrocedermos no tempo para percebermos que, mesmo antes da pandemia da COVID-19 – momento que alavancou os casos de burnout[3] e problemas de saúde mental, apenas uma pequena fração das pessoas necessitadas tinha acesso a cuidados de saúde mental eficazes, acessíveis e de qualidade. Por exemplo, 71% das pessoas com psicose em todo o mundo não têm acesso a serviços de saúde mental e 70% das pessoas com psicose são tratadas em países de alta renda, em contraposição a apenas 12% que são tratadas países de baixa renda.

Além disso, quando falamos sobre a depressão, as lacunas na cobertura dos serviços são profundas em todos os países: mesmo em países de alta renda, apenas um terço das pessoas com depressão recebe cuidados formais de saúde mental e estima-se que o tratamento minimamente adequado para depressão varie de 23% em países de baixa renda para 3% em países de baixa e média-baixa renda [4].

Ainda, em levantamento feito pelo Women in Workplace 2021, foi observado que o público feminino é o mais afetado por síndromes como a do burnout, sendo que em pesquisa realizada, 42% das mulheres sofrem de sintomas desta. Não à toa, tal porcentagem nos permite revelar traços de uma sociedade na qual a mulher é diariamente testada e ameaçada, além de ser constantemente cobrada a entregar resultados compatíveis com aqueles que muitos acreditam ser oriundos do público masculino.

Para tanto, e, considerando que o tópico vem ganhando maior visibilidade em diferentes esferas da sociedade, dada a seriedade do tema e o aumento de casos de pessoas desenvolvendo crises de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e do pânico, vem sendo criada uma estratégia intersetorial para a formulação e implementação de ações que busquem amenizar e ou solucionar o problema dentro de diferentes ambientes.

Logo, observa-se o fomento à colaboração intersetorial, especialmente para compreender os determinantes sociais e estruturais da saúde mental e intervir de forma a reduzir riscos, gerar resiliência e desmontar barreiras que impedem pessoas com problemas de saúde mental de participar plenamente da sociedade [5].

Desse modo, quando pensamos no ambiente corporativo, a coordenadora temática em Gestão de Pessoas do Conselho Regional de Administração de Minas Gerais, Carol Fernandes, afirma que algumas medidas podem ser tomadas para prevenir o problema nas organizações, tal como os líderes serem exemplos para enaltecer os comportamentos saudáveis, apoiar os funcionários a trabalhar de forma mais equilibrada e principalmente, terem uma comunicação eficaz [6]

Por isso, a necessidade de falarmos sobre os temas dentro das empresas e criarmos recursos que apoiem a jornada do colaborador se colocam essenciais no combate de quadros como os citados ao longo deste artigo. Logo, fatores como o aumento dos investimentos em saúde mental e uma liderança comprometida se colocam como centrais na garantia de fundos e recursos humanos adequados em todos os setores da saúde e outros setores, com intuito de atenderem às necessidades de saúde mental. Isso resultaria em uma maior inclusão de pessoas que sofrem de problemas de saúde mental, incluindo-as na dinâmica intersetorial, mas também reduziria as disparidades entre elas e as pessoas não acometidas por tais distúrbios, promovendo assim, a justiça social.

Sendo assim, buscando observar um quadro oposto ao desenvolvido aqui, este artigo salientou a importância de um olhar cauteloso e empático sobre ela, que nos move: a saúde mental. Mesmo porque, reconhecer a existência desses quadros, falar sobre o tema e buscar tratá-los é, tal como definido pela pesquisadora americana Brené Brown: encarar vulnerabilidades, tendo coragem de se expor, mesmo sem poder controlar o resultado.

Notas

[1] Saúde Mental no Ambiente de Trabalho. Disponível em: https://www.vittude.com/empresas/saude-mental-no-ambiente-de-trabalho/#:~:text=A%20sa%C3%BAde%20mental%20no%20trabalho,contribuir%20com%20a%20sua%20comunidade%E2%80%9D. > Acesso em 01 de julho de 2022.

[2] Síndrome de Burnout. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/sindrome-de-burnout-esgotamento-profissional/ > Acesso em 01 de julho de 2022.

[3] Distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade.

[4] OMS e Saúde Mental. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/187134-oms-destaca-necessidade-de-transformar-relacao-com-saude-mental > Acesso em 02 de julho de 2022.

[5]OMS destaca a necessidade de transformar a relação com a saúde mental. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/187134-oms-destaca-necessidade-de-transformar-relacao-com-saude-mental > Acesso em 03 de julho de 2022.

[6]Aumento no número de casos de burnout preocupa empresas. Disponível em: http://craal.org.br/2022/06/aumento-no-numero-de-casos-de-burnout-preocupa-empresas/#:~:text=O%20levantamento%20Women%20in%20the,e%20por%20uma%20suposta%20perfei%C3%A7%C3%A3o.> Acesso em 03 de julho de 2022.

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