Um compromisso com os fatos e a transparência dos dados

REDAÇÃO

07 Julho 2017 | 17h38

Cristina Castellan, Bacharel em Economia pela FEA-USP, foi Presidente do Cursinho FEAUSP e iniciou sua carreira como economista no mercado financeiro. Hoje atua com projetos inovadores em educação e é co-fundadora do movimento Faz Diferença?

Ivan Mardegan, Mestrando em Administração Pública e Governo pela EAESP-FGV e pesquisador do CEPESP/FGV. Bacharel em economia, graduado pela FEA-USP, atuou na política estudantil, no IFC (Banco Mundial), no movimento Todos pela Educação e na Prefeitura de São Paulo, especialmente na área de saúde. É co-fundador do movimento Faz Diferença?.

 

João Moraes Abreu, Bacharel em Economia pela FEA-USP. Trabalhou por dois anos na SP Negócios, na Prefeitura de São Paulo, com parcerias público-privadas, especialmente na infraestrutura e transportes. Inicia em Agosto/2017 o Mestrado em Administração Pública e Desenvolvimento Internacional na Harvard Kennedy School. É co-fundador do movimento Faz Diferença?.

 

 

Ter esperança no futuro do Brasil parece cada dia mais difícil. Os últimos anos foram marcados por denúncias de corrupção, polarização ideológica, um impeachment, um presidente processado no STF e uma recessão que deixou 13 milhões de trabalhadores desempregados. Nesse cenário, em que nada aponta para um Brasil mais próspero, um número recorde de brasileiros afirma ter vergonha do seu próprio país, como divulgou a Folha de São Paulo em reportagem de 26 de junho.

O debate público se tornou pouco racional, obcecado por desqualificar o opositor e, especialmente, despreocupado com fatos. Em algum momento perdemos a capacidade de colocar representantes de posições políticas diferentes para debater publicamente, usando evidências e experiências concretas. As ideias passaram a ser avaliadas pelo “time” de seu autor, e não pelas suas qualidades na resolução de desafios públicos. Nos tornamos intolerantes à civilidade e ao consenso.

Mais grave é constatar que este comportamento atinge até mesmo novos movimentos políticos, que se colocaram como expoentes da renovação na arena pública.

Em 2013, o Movimento Passe Livre (MPL) desencadeou as Manifestações de Junho com a defesa de 100% de gratuidade no transporte municipal. A falta de disposição ao diálogo com a Prefeitura de São Paulo e o uso superficial de dados e estudos dificultaram o surgimento de uma saída negociada para a solução das demandas urbanas. O resultado foi a radicalização dos discursos de maneira generalizada, algo que pouco contribui para boas soluções de políticas públicas.

Do lado oposto do espectro político, o Movimento Brasil Livre (MBL) protagonizou, recentemente, um exemplo lamentável de imaturidade e descompromisso com a transparência. Nesse episódio, após ser procurado pela Agência Pública, o grupo se negou a fornecer as fontes dos dados usados em um de seus vídeos, mandou a organização “se virar” e comparou o pedido por informações à prática de censura – um desserviço à sociedade brasileira.

Como vemos, exemplos desse tipo não são exclusividade de um grupo ou espectro ideológico. Eles representam uma forma antiga de fazer política, que não preza pela busca e transparência dos dados, e se mostra cada vez menos efetiva para a construção de soluções de longo prazo. São episódios como estes que fazem o cidadão interessado em entender e atuar sobre a realidade se afastar da esfera pública. Onde não há civilidade, não há debate. Se não há debate, não há possibilidade de construção conjunta de ideias.

O Faz Diferença? defende e promove a prática do debate aberto, qualificado, democrático e baseado em evidências. Defendemos a redução das desigualdades brasileiras através da difusão clara dos conhecimentos gerados na academia e na sociedade civil, disseminando o que funciona e o que não funciona nas políticas públicas – com conteúdos transparentes e divulgação de todas as fontes. Qualquer indivíduo ou organização, independente da sua ideologia, tem total liberdade de questionar nossos dados e análises. Só por meio do debate avançaremos para as soluções que precisamos.

Mais do que a promessa de um grupo de jovens, esse precisa ser um compromisso dos movimentos que desejam realmente renovar a política nacional e o debate público. Um compromisso de dar valor às evidências e repudiar propostas baseadas apenas em retórica ou em dados obscuros. Um compromisso com os fatos e com a transparência, fundamental para construir uma nova maneira de fazer política.