Um cenário para o pós-CoVid 19

REDAÇÃO

14 de maio de 2020 | 13h27

Ruben Cesar Keinert, Professor Titular Aposentado da FGV EAESP.

 

Não creio que, passada a pandemia, o mundo será regido por “Aquarius”, como anunciava aquela canção-hino hippie do filme de mesmo nome, em que a bondade, a solidariedade e a alegria seriam traços dominantes e que começaria a vigorar a partir dos anos 1970. Mas algo deve mudar. Não é possível antecipar detalhes, apenas fazer uma grande projeção.

O que consigo prever é que haverá uma espécie de “trade-off”, um jogo de perde-ganha, entre (i) uma forte tendência à reacomodação ao que o mundo era e (ii) uma pressão para a mudança de “antigas” estruturas materiais e técnicas, e de valores, atitudes e hábitos arraigados, por causa das “CoVids” que estão por vir. Provavelmente, em muitos setores se mudará muito pouco e em outros teremos adaptações consideráveis.

 

A tendência à reacomodação

Trocando em miúdos, a tendência à reacomodação emerge das estruturas físicas instaladas e protocolos estabelecidos na prestação de serviços básicos. E, em paralelo, da preferência a voltar aos hábitos arraigados na coletividade e que trazem embutidos neles valores e atitudes prezadas. Tudo somado, artefatos materiais, técnicas, arranjos sociais e bens simbólicos, temos a mesma cultura, velha de guerra, tema trazido dos antropólogos e que foi sendo apropriado por outros campos de estudo.

As estruturas físicas estão nas unidades de produção e comércio, como fábricas, lojas, shopping-centers e escritórios, meios de transporte público, moradias coletivas com muitas unidades e elevadores, grandiosas salas de espetáculos, escolas, hospitais e clínicas reunindo muitos infectados, navios, barcos e aviões colossais, mega-aeroportos, todos espaços projetados para induzir enormes aglomerações. Sem falar das sub-habitações superpovoadas e adensadas em áreas urbanas.

Os hábitos têm a ver com o gregarismo e despojamento exacerbado das sociedades ocidentais (sobretudo latinas) e sua propensão a demorados apertos de mão, abraços e beijos. Além disso, ao gosto pelo acotovelamento nas feiras-livres, nas viagens em grupos e nas saídas para a rua. No Brasil, pela confraternização improvisada e casual de 7 ou 8 pessoas reunidas fortuitamente no transporte público ou no bar da esquina. Gostamos da muvuca, do pagode, do fuzuê, do carnaval e do bafo da onça.

 

A pressão para a mudança

Remodelar, reaproveitar ou projetar novos espaços e conscientizar a população para a Nova Cidade que está sendo imaginada vai requerer recursos, energias e imaginação. Sim, porque a confluência entre a tendência à reacomodação e a pressão para a mudança se dará nas cidades, concretamente. Sozinhas, porém, elas não são capazes de dar conta da gigantesca tarefa que as (ou nos) espera. Governos nacionais e subnacionais, além de bancos, instituições de ajuda e organismos internacionais deverão contribuir decisivamente na empreitada, com expertise e recursos financeiros. A iniciativa privada deve entrar sob a forma de explorar novos negócios.

O tripé básico constitui-se de saneamento, coleta e disposição do lixo e água encanada chegando nas residências, em todos os bairros. Não é preciso discorrer sobre a importância destes itens. Mas será necessária muita engenharia financeira e institucional para colocar esta ideia em prática.

Em seguida, estão redes de distribuição de luz e gás de cozinha. E renda mínima para a parcela da população desempregada ou incapacitada para o trabalho poder pagar estas 5 contas. No Brasil, as experiências com o Bolsa Família, com o Benefício de Prestação Continuada e com o atual Auxílio Emergencial indicam que um mínimo de proteção social tem que ser garantido em um mundo econômico em franco encaminhamento para poupar salários e trabalho humano. A nossa aberrante desigualdade social está cobrando o seu preço na pandemia.

A casa, o quarteirão e o bairro – ou a comunidade – voltam a ser referência básica na vida individual e coletiva. Foi recuperado o sentido de vizinhança, como forma de sobrevivência na pandemia. Empregos e pequenos negócios deverão ser estimulados em círculos próximos de distância das moradias.

Os grandes deslocamentos devem ser diminuídos, como consequência. O home-office vai ser fortalecido. A casa, para a classe média, já se tornou local de trabalho e essa tendência deve ser incrementada. O transporte público precisará ser menos transbordante. Andar a pé, usar bicicleta, moto e patinete estará em foco.

A educação à distância sairá fortalecida da experiência da quarentena. A telemedicina, ídem. Os médicos e paramédicos visitando as famílias, igualmente. Os sistemas públicos de saúde resgataram respeito, credibilidade e admiração.

Os grandes espetáculos terão de ser repensados, com medidas de segurança sanitária sendo tão valorizadas quanto as de segurança pessoal. Uma nova arquitetura, com espaços segmentados deverá aparecer.

Quanto a valores, atitudes e hábitos, para abreviar, a pressão será por um modo de vida mais “asiático”: mais distanciamento pessoal e precaução nas relações face-a-face, acentuada preocupação com higiene, menor compartilhamento de objetos de uso individual e contenção na expressão de afetos.

Enfim, e repetindo, não se trata de descrever mais uma utopia sem o arrojo e inventividade dos que desenharam as antigas ao imaginar seus mundos ideais. Cogita-se apenas de enunciar as formas da pressão advinda de uma experiência invulgar e aterradora que se apresentou para a Humanidade e realçar tentativas, estudos e projeções que estão sendo novamente atualizadas e ampliadas.

Este é o cenário que antevejo para a pós-pandemia. De um lado, a pressão física da capacidade instalada e de hábitos no sentido da reacomodação e, de outro, pressões das lições de sobrevivência coletiva que estamos vivendo, reforçando iniciativas de curto, médio e longo alcance que estão disponíveis ou sendo testadas.

 

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