Um balanço da pandemia no Distrito Federal quase 1 ano depois do início da emergência sanitária*

Um balanço da pandemia no Distrito Federal quase 1 ano depois do início da emergência sanitária*

REDAÇÃO

18 de fevereiro de 2021 | 10h15

Michelle Fernandez, Cientista Política, Professora e Pesquisadora (IPOL/UnB)

Frederico Bertholini, Cientista Político, Professor e Pesquisador (IPOL/UnB)

 

Uma análise retrospectiva do enfrentamento da pandemia pelo Governo Distrital aponta claramente dois momentos distintos de atuação. A intervenção rápida, relativamente eficaz e orientada pela ciência, que caracterizou a ação do Governo do DF (GDF) no primeiro momento, acabou dando lugar a decisões pouco respaldadas pela ciência e influenciadas diretamente pela posição negacionista do Governo Federal.

Em 28 de fevereiro, antes mesmo da confirmação do primeiro caso, o GDF declarou, por decreto, situação de emergência de saúde pública em virtude do risco de pandemia por coronavírus. Na mesma semana da divulgação do primeiro caso de infectado, o GDF decretou as primeiras medidas de enfrentamento à pandemia. Nesse primeiro pacote de medidas, editado no dia 11 de março, já foram suspensas aulas em escolas e universidades, públicas e privadas. Essas medidas foram consideradas ,a priori, exageradas, tendo em vista que o DF tinha apenas um caso confirmado e um outro caso suspeito. No entanto, hoje, com o avanço da epidemia, avalia-se que a decisão do GDF naquele momento foi acertada. Nos primeiros meses de pandemia no Distrito Federal, tivemos um R(t) superior a 3, o que indica que o contágio no DF naquele momento era extremamente acelerado, justificando a opção por medidas enérgicas para a contenção da pandemia.

Para analisarmos a atuação do governo de Ibaneis Rocha ao longo deste primeiro ano de pandemia, necessitamos observar as ações agrupadas em três categorias: recomendação ou determinação do isolamento e do distanciamento social; ampliação da capacidade de atendimento dos serviços de saúde; e ações de saúde pública mais clássicas para enfrentamento a epidemias, como mapeamento e vigilância dos casos suspeitos e confirmados.

Entre as recomendações para o distanciamento social estão: suspensão das aulas, fechamento do comércio, fechamento de bares e restaurantes, restrição de funcionamento das agências bancárias, proibição de aglomerações de qualquer natureza, entre outras. O início dessas ações no Distrito Federal ocorreu durante a segunda e a terceira semanas de março, muito antes de serem discutidas e adotadas pela grande maioria dos estados. Porém, essas medidas sofreram fortes investidas contrárias à sua permanência, sobretudo pelo empresariado do DF e pelo discurso do Governo Federal, principalmente externado pelo Presidente da República. A partir de maio de 2020 as medidas de distanciamento social foram relativizadas e, mesmo com o retorno do aumento de casos em dezembro de 2020, não voltaram a ser uma prioridade para o GDF no enfrentamento à pandemia.

Sobre o aumento da capacidade dos serviços de saúde, o Governo do Distrito Federal atuou ao longo do ano para ampliar o número de funcionários na saúde, fazendo novas nomeações de profissionais aprovados em concurso. Além disso, ampliou a oferta de leitos na rede de saúde do DF com o início do funcionamento do hospital de campanha no Estádio Mané Garrincha e o aumento de leitos em outras unidades de saúde. No primeiro pico de contágios, em julho de 2020, as UTIs do DF colapsaram e chegamos a enfrentar filas para conseguir leitos. Atualmente, com o novo aumento de casos, preocupa a possibilidade de enfrentar-nos a uma situação semelhante a julho, uma vez que muitos leitos destinados a pacientes COVID-19 tenham sido desmobilizados em função da diminuição de casos que aconteceu entre agosto e novembro.

Por fim, com relação às ações de vigilância epidemiológica, o GDF realizou durante o ano de 2020 a testagem de pacientes que apresentam sintomas respiratórios. Em abril, tivemos uma ampliação da capacidade de testagem. A priori, os testes eram realizados nos serviços de drive-thru. Em maio, com número insuficiente de testes para manter esse serviço em funcionamento, o GDF instituiu o modelo itinerante de testes, concentrando a testagem em locais de acordo com calendário previamente estabelecido. Essa diminuição na capacidade de testagem dificultou a tentativa de mapeamento da situação da epidemia em Brasília e suas cidades satélites. Em meados de 2020, o GDF recuperou sua capacidade de testagem e melhorou a qualidade dos testes fornecidos e do modelo de testagem. A testagem para casos suspeitos de COVID-19 passou a ser realizada nas Unidades Básicas de Saúde e os testes utilizados eram, na sua maioria, testes PCR, em detrimento dos testes rápidos usados no início da pandemia.

A evolução dos casos de COVID-19 no Distrito Federal (Gráfico 1) apresentou queda sustentada entre agosto e novembro de 2020. No entanto, a partir de novembro temos um aumento do número de novos casos ao longo do tempo. A curva aponta para o avanço da pandemia rumo ao segundo pico de números de casos e mortes, embora o crescimento neste momento pareça ser menos acentuado.

Gráfico 1. Evolução de casos de COVID no DF

Fonte: elaboração própria com base nos dados da SSP-DF.

Em meio aos receios pelo avanço da segunda onda, temos uma fagulha de esperança que vem acompanhada do inicio da vacinação contra COVID-19. A vacinação começou no Distrito Federal no dia 19 de janeiro de 2021.O DF é a unidade da federação que tem a maior porcentagem da população vacinada, cerca de 3%. Ao todo, até 5 de fevereiro de 2020, o DF recebeu mais de 166 mil vacinas: 125.160 doses da CoronaVac e 41.500 doses da Oxford/Aztra-Zeneca. Dessas doses, 56% já foram aplicadas. Estão sendo vacinados profissionais de saúde e idosos acima de 80 anos. A vacinação está acontecendo em 41 pontos de vacinação e em 12 postos de atendimento em carros (drive-thru).

Ainda que saibamos que estamos diante de novos desafios no enfrentamento à COVID-19, diferentemente do que aconteceu em março de 2020, as propostas governamentais no DF para lidar com o aumento de casos é inconsistente e desestruturada. Não há medidas enérgicas para freiar o avanço da segunda onda, a quantidade de leitos para pacientes com coronavírus é bastante inferior a quantidade disponibilizada em 2020 e estamos diante de profissionais exaustos depois de atuarem 1 ano no front desta pandemia. Além disso, a vacinação contra o coronavírus, nossa única fonte de esperança, ainda caminha a passos lentos. Sabemos que estamos diante de um novo ano difícil.

*O texto faz parte do projeto “Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de COVID-19 no Brasil”, em parceria com a ABCP, coordenado por Luciana Santana (Ufal).

 

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