Um Balanço da Covid-19 no Brasil e no Mundo

Um Balanço da Covid-19 no Brasil e no Mundo

REDAÇÃO

12 de agosto de 2020 | 11h47

Alexandre Ricardo Pereira Schuler, Engenheiro Químico com Mestrado na UFRJ e Doutorado na UFPE,
Professor Aposentado da UFPE, foi Diretor do Centro de Tecnologia e Geociências da UFPE.

Antônio Sérgio Araújo Fernandes, Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) com Pós Doutoramento em Administração Pública pela Universidade do Texas em Austin, é Professor do NPGA/EA-UFBA.

 

O Brasil chegou a marca de pouco mais de 100.000 óbitos, vítimas da COVID-19, entre o último fim de semana e o início desta semana. Um dos principais aspectos que determinou este quadro dramático no país se deve, como sempre observamos, pela ocorrência de uma dissonância entre o Governo Federal na figura do Presidente – que foi indiferente ao problema da COVID-19 desde o início da pandemia; e a ampla maioria dos Governos Estaduais e Municipais – que procuraram agir responsavelmente de acordo com os protocolos da Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso já foi por demais discutido no espaço deste blog em outros artigos, por nós e outros colegas. Além disso, há um fato adicional, dado que na era das redes sociais, não faltaram “celebridades”, “celebridades políticas”, políticos, e até profissionais da saúde discordantes dos protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS) a fazer, no início da pandemia, as mais absurdas previsões sobre os números da COVID-19 como se fossem experts. Mais ainda, temos observado também muitos comentários a respeito da letalidade da COVID-19 no Brasil, quando comparada com outros países. Neste artigo apresentaremos os dados acerca de letalidade e mortalidade informados pela OMS em seu site (https://covid19.who.int/table), atualizados em 10 de agosto de 2020.

 

Cabe primeiramente para melhor entendimento, destacar a diferença entre as duas metodologias para calcular a probabilidade de uma doença infecciosa causar uma fatalidade:

Taxa de letalidade (case fatality rate) – medida que se refere à proporção de mortes em relação aos casos diagnosticados.

Taxa de mortalidade (infection fatality rate) – medida que se refere à proporção de mortes em relação a todos os casos de pessoas infectadas (diagnosticadas ou não).

 

Inicialmente foi realizada a coleta de dados (acumulado de casos e de óbitos) por país, mas apenas dos 98 países com mais de 1 milhão de habitantes, desde a China, com 1.402.509.320 habitantes até Djibuti, com 1.078.373 habitantes. Esses dados foram registrados numa planilha, que calculou, para todos os 98 países, a letalidade (óbitos por 100 casos), a incidência (casos por 100 mil habitantes) e a mortalidade (óbitos por 100 mil habitantes). Concluída a planilha, a mesma foi ordenada das seguintes formas: população, casos, óbitos, letalidade, incidência e mortalidade. Em seguida foram selecionados apenas os países com mais de 100 milhões de habitantes. Os Quadros 1, 2, 3, 4, 5 e 6 correspondem, respectivamente, aos dados de: população, casos, óbitos, letalidade, incidência e mortalidade.

 

Quadro 1 – Países com mais de 100 milhões de habitantes.

PaísContinente (*)População
ChinaÁsia1.402.509.320
ÍndiaÁsia1.361.865.555
Estados UnidosAmérica329.634.908
IndonésiaÁsia266.911.900
PaquistãoMediterrâneo Leste220.892.311
BrasilAmérica211.482.342
BangladeshÁsia168.557.578
RússiaEuropa146.745.098
MéxicoAmérica126.577.691
JapãoÁsia125.950.000
FilipinasÁsia108.584.658
EgitoMediterrâneo Leste100.336.647

(*) Classificação da OMS.

 

Quadro 2 – Países com mais casos de Covid-19.

PaísContinenteCasos
Estados UnidosAmérica4.951.851
BrasilAmérica3.012.412
ÍndiaÁsia2.215.074
RússiaEuropa887.536
África do SulÁfrica553.188
MéxicoAmérica475.902
PeruAmérica471.012
ColômbiaAmérica376.870
ChileAmérica373.056
IrãMediterrâneo Leste326.712
EspanhaEuropa314.362
Reino UnidoEuropa309.767

 

Quadro 3 – Países com mais óbitos por Covid-19.

PaísContinenteÓbitos
Estados UnidosAmérica160.989
BrasilAmérica100.477
MéxicoAmérica52.006
Reino UnidoEuropa46.566
ÍndiaÁsia44.386
ItáliaEuropa35.203
FrançaEuropa30.201
EspanhaEuropa28.503
PeruAmérica20.844
IrãMediterrâneo Leste18.427
RússiaEuropa14.931
ColômbiaAmérica12.540

 

Quadro 4 – Países com maior letalidade da Covid-19.

PaísContinenteLetalidade
FrançaEuropa16,29
Reino UnidoEuropa15,03
ItáliaEuropa14,08
BélgicaEuropa13,46
HungriaEuropa12,94
MéxicoAmérica10,93
HolandaEuropa10,62
EspanhaEuropa9,07
CanadáAmérica7,53
SuéciaEuropa7,00
IrlandaEuropa6,65
SudãoMediterrâneo Leste6,53

(*) O Brasil é o 34o, os Estados Unidos o 39o e a Argentina o 64o.

 

 

Quadro 5 – Países com maior incidência da Covid-19.

PaísContinenteIncidência
CatarMediterrâneo Leste4111,23
BahrainMediterrâneo Leste2851,75
ChileAmérica1952,44
OmanMediterrâneo Leste1748,92
PanamáAmérica1745,78
KuwaitMediterrâneo Leste1622,43
Estados UnidosAmérica1502,22
PeruAmérica1465,89
BrasilAmérica1424,43
ArmêniaEuropa1366,36
MoldáviaEuropa1023,33
SingapuraMediterrâneo Leste966,13

 

Quadro 6 – Países com maior mortalidade da Covid-19.

PaísContinenteMortalidade
BélgicaEuropa85,64
Reino UnidoEuropa70,09
PeruAmérica64,87
EspanhaEuropa60,52
ItáliaEuropa58,44
SuéciaEuropa55,74
ChileAmérica52,74
Estados UnidosAmérica48,84
BrasilAmérica47,51
FrançaEuropa45,03
MéxicoAmérica41,09
PanamáAmérica38,14

 

Os Quadros 2 e 3 mostram que os casos confirmados e os óbitos resultantes da COVID-19 se concentram mais no continente americano, com 67,7% dos casos e 61,4%. De acordo com o Quadro 4, a Europa lidera com folga em letalidade, contribuindo com 80,8%, enquanto que Estados Unidos e Brasil, apesar do elevado número de casos, ocupam a 34a e a 39a posições, respectivamente. A Argentina está na 64a posição. Os países do Mediterrâneo Leste apresentam a maior incidência de casos (47,4%), seguidos dos americanos (37,1%), conforme se vê no Quadro 5. Finalmente, no Quadro 6 se vê que os óbitos estão concentrados na Europa (56,2%) e no continente americano (43,8%).

 

Em síntese, dentre os 12 países mais populosos do mundo, apenas cinco estiveram entre os doze ranqueados nos Quadros 2 a 6, conforme se resume no Quadro 7. As Américas lideram, seguidas da Índia.

 

 

Quadro 7 – Posição dos países em cada um dos cinco parâmetros.

PaísCasos       ÓbitosLetalidade (*)IncidênciaMortalidade
Estados Unidos1o1oAcima de 12o7o8o
Brasil2o2oAcima de 12o9o9o
México6o3o6oAcima de 12o11o
Índia3o5oAcima de 12oAcima de 12oAcima de 12o
Rússia11oAcima de 12oAcima de 12oAcima de 12oAcima de 12o

*número dos mortos para cada 100 confirmados com a doença

 

Em algum momento logo no início da pandemia no Brasil, foi divulgada uma comparação entre quatro países europeus (Bélgica, França, Itália e Reino Unido), cuja soma das populações (205.273.526) é praticamente igual à do Brasil (211.482.342). Na ocasião mostrou-se que a situação da Covid-19 no Brasil era melhor do que naquele conjunto de países. Hoje tornamos a realizar essa comparação (Quadro 8) e verificamos que o Brasil lidera com folga em número de casos (quase 4 vezes mais), embora tenha um pouco menos de óbitos (82%), o que se reflete em sua menor letalidade (23%). A incidência quase quatro vezes maior, entretanto, mostra que a difusão da pandemia no Brasil está sendo bem maior do que nos outros países, levando-nos à conclusão de que não tivemos a mesma eficiência na retenção da pandemia.

 

Quadro 8 – Comparação entre o Brasil e quatro países europeus com mesma área territorial.

PaísCasosÓbitosLetalidade (*)PopulaçãoIncidênciaMortalidade
Bélgica73.3089.87013,4611.524.454636,1185,64
França185.35330.20116,2967.075.000276,3445,03
Itália250.10335.20314,0860.238.522415,1958,44
Reino Unido309.76746.56615,0366.435.550466,2770,09
Grupo818.531121.84014,7205.273.526398,7559,35
Brasil3.012.412100.4773,34211.482.3421424,4347,51
Razão Grupo/BR:0,271,214,410,970,281,25

*número dos mortos para cada 100 confirmados com a doença

 

Outra alegação também no início da pandemia foi a de que a situação na Argentina seria pior do que a do Brasil. Como já naquela época o número de casos no Brasil era maior, muitas autoridades diziam que deveríamos considerar os casos em relação ao tamanho da população (a incidência), que é o mais correto, de fato. Isso nos motivou a realizar essa comparação. No Quadro 9 é apresentada a comparação entre Brasil e Argentina, bem como com os Estados Unidos. Observamos que o número de casos e de óbitos é bem menor na Argentina. Mas como a população da Argentina também é bem menor do que a do Brasil, devemos olhar para os números relativos (incidência e mortalidade). A incidência no Brasil é 2,65 vezes maior do que na Argentina, enquanto que a mortalidade é 4,69 vezes maior. Para completar, a letalidade no Brasil é quase o dobro (77% maior) do que a da Argentina. Ao comparar o Brasil com os Estados Unidos, vemos que a incidência e mortalidade são praticamente iguais (ambas as taxas são ligeiramente maiores nos Estados Unidos). O mesmo podemos dizer em relação à letalidade: quase iguais, embora um pouco menor no Estados Unidos.

 

Quadro 9 – Comparação entre Brasil, Argentina e Estados Unidos

PaísCasosÓbitosLetalidade (*)PopulaçãoIncidênciaMortalidade
Estados Unidos4.951.851160.9893,25329.634.9081502,2248,84
Brasil3.012.412100.4773,34211.482.3421424,4347,51
Argentina241.8114.5561,8844.938.712538,0910,14

*número dos mortos para cada 100 confirmados com a doença

 

Dois pontos a notar aqui, a África é o continente que menos sofre com a pandemia, com exceção da África do Sul, o que demonstra que o vírus se difunde em adensamentos urbanos populosos.  Por outro lado, a Europa e os Estados Unidos, por serem as áreas com muito adensamento urbano, são os continentes mais atingidos pela pandemia. Os Estados Unidos, ainda tem um problema similar ao brasileiro de negação das autoridades federais, com destaque ao Presidente Trump. Uma exceção a todo o quadro dramático do Ocidente desenvolvido, foi a Alemanha. Ali o Governo mostrou um grau estratégia ao planejar medidas enquanto a pandemia ainda estava transitando continentalmente da China para o Ocidente. Ao mesmo tempo foi insistente nas medidas de testagem massiva da população, o que proporcionou a adoção mais precisa de medidas de isolamento social.

E o Brasil com todos os problemas de coordenação federativa e falta de apoio do Governo Federal, reforçada na figura do Presidente, tem apenas como agentes de combate à COVID-19, os Governos Estaduais e Municipais, que de modo responsável, contando com a força e heroísmo dos profissionais de saúde (muitos vitimados também nestes mais de 100.000 óbitos) conseguem manter uma mortalidade de 47,51% e uma letalidade de 3,34. Esse número, diante da circunstância política atual que nos assombra, ressalta a importância que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem no combate à COVID-19. E isso mesmo com o amplo corte de recursos do Governo Federal para a saúde ao longo dos últimos 2 anos, e com menos de 30% dos repasses federais à COVID-19 para estados e municípios, aprovados pelo congresso. Caso não tivéssemos o SUS, a letalidade e mortalidade da COVID-19 no Brasil seria muito maior, seria um morticínio sem tamanho.

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