UE? Queremos a OTAN!

UE? Queremos a OTAN!

REDAÇÃO

25 de maio de 2022 | 01h21

Marcelo de Almeida Medeiros, Professor Titular de Política Internacional Comparada do Departamento de Ciência Política da UFPE e Pesquisador PQ-1C do CNPq. E-mail: marcelo.medeiros@ufpe.br

 A União Europeia (UE) é, grosso modo, um referencial de sucesso no campo da engenharia institucional. Ela inova politicamente e logra manter a paz na Europa Ocidental desde a sua fundação, celebrada com o Tratado de Roma, em 1957. Apesar de propor um regionalismo comprometido com a renúncia de fração da soberania Estatal, a UE traz, no seu rastro, melhorias incontestáveis no campo econômico, social e financeiro. Isso fica muito claro com a relevância do Euro no mercado internacional, o aumento significativo do nível de vida nos países da Europa Central e Meridional e o peso da União Europeia nas negociações comerciais globais. O projeto se mostra tão exitoso que vem conquistando novos membros sistematicamente, passando de seis, quando de sua gênese, a vinte e sete, nos dias atuais. Sendo o Brexit a exceção que confirma a regra.

Todavia, a UE parece ter um calcanhar de Aquiles. Ele vem sendo apontado já há muito tempo, mas recentemente tornou-se sobremaneira visível em função do conflito entre Rússia e Ucrânia. Na verdade, desde o malogro da Comunidade Europeia de Defesa (CED), passando pela instituição da União da Europa Ocidental (UEO), a União Europeia não tem sido capaz de forjar uma verdadeira Política de Segurança e Defesa Comum (PSDC). Isto é, dentro de contornos supranacionais que marcam suas políticas na área econômica. O que existe é, de fato, uma fraca cooperação entre Estados, assentada em mecanismos pouco eficientes e, sobretudo, desprovida de base militar sólida e operacional. Historicamente protegida pelo guarda-chuva da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), liderada pelos Estados-Unidos (EUA), a UE relega ao segundo plano os investimentos e negociações políticas envolvendo o tema. Essa dependência vis-à-vis Washington a torna deveras vulnerável gerando desconforto em muitos de seus membros. Principalmente aqueles que integram a União Europeia, porém não participam da OTAN.

Este é o caso da Suécia e da Finlândia. Tradicionalmente neutros, estes Estados recentemente oficializaram seus pedidos de adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte, temendo a possibilidade de uma agressão por parte de Moscou. Claramente, Estocolmo e Helsinque não consideram que ser membro da UE é condição suficiente para dissuadir o Kremlin de um ataque aos seus territórios. Esse, possivelmente, também é o sentimento de Bruxelas. Apesar dos esforços envidados pelos altos funcionários europeus no sentido de aprofundar a integração na seara da segurança e defesa, os Estados-membros preferiram favorecer a construção e a inserção internacional da UE a partir de uma base de poder normativo calcado na paz. Inclusive porque algumas capitais temiam (e ainda temem) uma hegemonia interna dos grandes países, sem o devido contrapeso de Washington. Há o receio da preponderância do eixo Berlim-Paris aflorar como fator de desestabilização nessa área sensível e tão cara à soberania dos Estados.

Contudo, a entrada de novos membros na OTAN envolve um processo que exige o consenso daqueles que compõem a instituição. Um desses membros tenta aderir à União Europeia – sem sucesso – há anos e é uma das peças chaves na visão geopolítica da organização: a Turquia. Este país situado entre Europa e Ásia vem alternando, ao longo dos séculos, maior ou menor proximidade com o Velho Continente. Após o período de laicização e ocidentalização iniciado por Mustafá Kemal no primeiro quartil do século passado, o momento atual sob a liderança de Recep Tayyip Erdoğan parece remeter a Turquia às suas raízes muçulmanas e ao mundo Oriental. Ou seja, uma situação que enxerga Rússia e China como aliados alternativos e potenciais. Assim, é bem possível que a ação de Ancara no que concerne seu poder de veto anunciado no seio da OTAN seja motivada por um sentimento de animosidade em relação à UE e, ao mesmo tempo, respaldada na busca por compensações de ordem política e econômica em outros tabuleiros de negociação do cenário mundial.

União Europeia e Estados-Unidos devem, desse modo, se preparar para lidar com a Rússia de Putin que, aparentemente, parece prenunciar uma nova era nas relações internacionais. Era esta que também está marcada por uma China que expande seus interesses nos cinco continentes. Bruxelas precisa fazer opções no que se refere à sua segurança e defesa. Enquanto isso, Suécia e Finlândia aguardarão o veredicto da OTAN.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.